
Soraia escolheu um mocho
Adelino Meireles/Global Imagens
O sorriso permanente de Soraia enquanto o tatuador grava na sua perna um esvoaçante mocho intriga qualquer um. Será o tão falado sofrimento associado às tatuagens apenas um mito? Nada disso, confirma a própria. "A dor é imensa. Mas, ao mesmo tempo, vicia, envolve-nos", explica, satisfeita.
Acompanhada pelo namorado, Sérgio, que regista o momento com abundantes fotografias, a jovem "já nem se lembra" dos receios que sentiu quando fez a primeira tatuagem. Uma paixão para a qual contribuiu fortemente o entusiasmo de Sérgio.
O peito coberto de inscrições não o deixa mentir. Cada desenho ou inscrição ostentado no corpo representa um episódio marcante, como a passagem pela tropa ou valores a que se diz arreigado, de que é exemplo a palavra "esperança". "Não me arrependo de nada. E tenho a certeza de que não vou ficar por aqui. Mas, como só tenho 23 anos, vou com calma...".
Orfeu, o artista incumbido da tarefa, não estranha a indiferença à dor que a maioria exibe: "O que custa mais é a primeira tatuagem. Quando se perde o medo, só se pensa em fazer a seguinte".
Com o aperfeiçoamento tecnológico, já é possível mitigar, em larga escala, a dor que a inscrição de uma tatuagem provoca. A anestesia e máquinas rotativas próprias para o efeito conseguem o pequeno milagre de tornar quase indolor o processo.
Um cenário de que Paulo Ozzy, tatuador e proprietário dos estúdios Spider Tattoo, nem sequer deseja ouvir falar. "Uma tatuagem sem dor não é tatuagem. A dor faz parte do processo", defende, convencido de que a inscrição na pele será mais valorizada se for acompanhada por algum sofrimento.
A ilusão de ser "cool"
Onze anos no ofício fazem de Orfeu quase um veterano. Embora ainda não tenha chegado sequer aos 30 anos. Quando associam a sua profissão a um imaginário sedutor esboça um sorriso amargo. "Profissão 'cool'? Não é, de todo. Exige horas infindáveis de dedicação e sacrifício. Passo os dias encerrado numa pequena sala", contrapõe, ao mesmo tempo que atribui a "imagem errada" aos programas de televisão.
Séries como "Miami Ink" podem ter elevado os patamares de popularidade das "tattoos" para índices estratosféricos, mas, por outro lado, criaram uma ilusão perigosa de facilitismo. "Há quem pense, como vê na TV, que um desenho complexo pode fazer--se em poucos minutos. Isso é um disparate", queixa-se.
Tão ou mais graves ainda são os casos em que pares de namorados ainda tenros decidem tatuar o nome do "cônjuge" numa parte do corpo, esquecendo-se de que, ao contrário da relação em causa, as tatuagens foram feitas para durar uma vida... Por isso, sempre que lhe irrompe pelo estúdio um exemplo desses, Orfeu garante que tenta elucidar os jovens sobre esses riscos. Uma estratégia que surte efeito, mas "só às vezes". "A decisão final é de quem tatua, claro", diz. v
