
É um instante, um segundo ou dois, o suficiente para a máquina fotográfica disparar uma vez e guardar para sempre aquele momento de glória. Carlos, de pé, de fato e gravata, como corpo meio arqueado sobre a filha Bárbara do lado direito e a mulher Perpétua, a segurá-lo do lado esquerdo, de bouquet na mão. Já está. Com ajuda, volta para o cadeirão azul, feliz. Conseguiu.
Esta história começa ao contrário. Porque foi ao contrário que ficou a vida de Perpétua e Carlos no dia 14 de julho, quando um AVC o atirou com violência para uma cama, roubando-lhe toda a mobilidade. "Só mexia os olhos". Anteontem, casou-se no Hospital de Braga. No final da cerimónia, num esforço ímpar, Carlos pôs-se de pé para tirar uma fotografia, como manda a tradição.
Momentos antes, numa sala ali ao lado, no piso três do serviço de Ortopedia do Hospital de Braga, Carlos Pereira, 56 anos, major na reserva, e Maria Perpétua, de 53, decididos e emocionados, gravaram no papel o prolongamento das suas vidas em comum. Estão juntos há 13 anos, têm uma filha com 12, mas foi agora, no momento mais difícil, que decidiram trocar alianças, adotar apelidos, jurar amor e respeito na saúde e na doença.
Um arrepio no silêncio
Na sexta-feira, a sala de formação, branca e fria, com janelas rasgadas para o interior do hospital, tornou-se quente e acolhedora por uns momentos. Nos outros pisos, dezenas de cabeças assomaram aos vidros para espreitar o momento em que o hospital deixou de ser apenas um lugar para tratar doentes.
Médicos de bata branca e estetoscópio ao pescoço, enfermeiras, técnicos de reabilitação física, auxiliares, familiares e amigos, vestidos a rigor, preenchiam as cadeiras atrás do casal. Um ipad sobre a mesa da conservadora levava, via Skype, a cerimónia até aos Açores, de onde a filha do primeiro casamento de Carlos assistia, emocionada.
"Agora repita comigo que está a casar-se de livre vontade", pediu a conservadora. Fez-se silêncio na sala. Num esforço hercúleo, devido à traqueostomia (buraco na garganta para respirar), Carlos conseguiu que a sua voz, quase impercetível, chegasse a todos. E arrepiasse.
"Pareciam adolescentes"
Foi por uma questão prática, para aliviar as burocracias, que, há algumas semanas, Perpétua propôs a Carlos: "E se nos casássemos?". "O rosto dele iluminou-se, foi incrível", recorda a enfermeira Paula Nogueira, que presenciou o momento. "A partir dali, pareciam dois adolescentes". Para o doente, foi "um impulso enorme em termos de reabilitação". Trabalhou "com muito afinco para estar o melhor possível no dia do casamento".
O entusiasmo dos noivos contagiou a enfermeira Paula e toda a equipa que trata de Carlos desde julho. Alastrou à diretora do Serviço de Medicina Física e Reabilitação, Fátima Martins, que é também presidente da Comissão de Humanização, um departamento cuja missão é tornar o hospital um espaço mais acolhedor e humano.
"Temos de nos preocupar não só com a parte física, mas também com a parte psicológica. É muito importante para um doente em reabilitação sentir-se parte integrante da sociedade", explica a médica. Todos juntos, puseram mãos à obra para organizar o casamento civil com a pompa e circunstância possíveis. O resultado ultrapassou todas as expectativas.
"Estou tão feliz. Sabia que estavam a preparar alguma coisa, mas não estava à espera de nada disto", exclama Perpétua, olhos rasos de lágrimas, distribuindo agradecimentos por todo o lado.
Desde julho que Perpétua tenta combinar o trabalho com o hospital, a casa e a filha. É um corre-corre, mas todos os dias arranja umas horinhas para se sentar ao lado de Carlos e ler-lhe o jornal de fio a pavio. "Já lhe pedimos para usar um microfone e, assim, lia para os doentes todos", graceja a enfermeira Paula, que jamais esquecerá aquele doente e a sua relação com Perpétua. "É de uma ternura e de um carinho que não se explica. Ela não desiste de o incentivar a fazer cada vez mais e mais. É uma prova de amor muito grande".
Só o tempo dirá quantos meses de recuperação Carlos tem pela frente. Em breve, será transferido para o Centro de Reabilitação do Norte, em Gaia. As esperanças são grandes e, anteontem, foram redobradas.
