
16ª edição do Festival Internacional de Artes de Rua "Imaginarius" em Santa Maria da Feira
André Gouveia / Global Imagens
Ao fim de tantas edições, algo podemos dizer: no Imaginarius, não há nada melhor do que uma palhaçada e "a simplicidade é" mesmo "o último grau de sofisticação".
Últimas palavras estas, de Leonardo da Vinci, mote certeiro do 16º Festival Internacional de Teatro de Rua, de Santa Maria da Feira, que terminou este sábado mais cedo, com o cancelamento das últimas horas de programação devido à chuva, que afastou o público da noite habitualmente mais concorrida.
A espetacularidade dos insufláveis gigantes voadores da companhia francesa Plasticiens Volants, inspirados nos esboços aeronáuticos de Da Vinci, eram a principal atração em estreia absoluta e foram uma aposta ganha do festival, mas só quem foi na noite de sexta-feira os pôde ver (foi um dos espetáculos tramados pela chuva, no segundo dia). Cabeças em massa a apontar o céu, havia cavalos bizarros, planetas, uma pirâmide, Octavias e a nave Zeppelin de 15 metros de cumprimento a preencher o vazio, assim como um pensamento: como seria viver no século XV, para imaginar voar assim? "Da Vinci, Volare" foi só aquilo e bastou.
Sem demasiados conceptualismos, que se perdem no embrulho, são também os diferentes registos de palhaço que mais cativam o público, como foram os espanhóis Lapso Producciones, em "Clásicos Excêntricos", que tocam temas eruditos com instrumentos insólitos desde buzinas a copos - tocar o "Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky com sinos, a abanar o rabo, foi um dos momentos altos do festival - ou o holandês gingão do carro quitado e coração trapalhão, da companhia Móbil, em "Sulky M1". Ou, a simplicidade do bailado enérgico e feliz, com o beijo acrobático mais longo da história, da companhia espanhola Moveo, em "Tu vas tomber".
Entre os espetáculos mais completos e criativos no programa, destacaram-se os portugueses "Vicent", de Cão à Chuva e Projeto Ez, e "Mira, Miró. Mirando!", do Teatro Art"Imagem, musicados e com temas originais. O primeiro uma reflexão acerca da formatação da nossa sociedade, protagonizado pelo talentoso e expressivo "clown" contemporâneo Rui Paixão, e o segundo um delicioso Carnaval de Arlequim infantil, com figurinhas simpáticas, inspiradas na obra do pintor catalão, que apeteciam levar para casa (mesmo a adultos).
O experimentalismo do espaço infantil - o workshop de percussão corporal de Bruno Estima e a instalação com marcadores "elásticos" para pintar o chão foram um sucesso - e a multidisciplinaridade da programação continuam a ser pontos fortes do Imaginarius. As bandas de rua são sempre uma boa aposta e este ano o trio francês "La Fausse Compagnie" distinguiu-se, com os seus instrumentos Stroh reconstruídos e uma postura enigmática, até se esfumar num canal do rio Cáster.
A capacidade de reinvenção da Orquestra Criativa, da Feira, com lugar cativo no programa pelo seu trabalho de envolvimento comunitário, também merece nota. 16 harpas inusitadas resultaram na construção de uma instalação sonora original (uma pomba gigante), em "A pomba da paz é cheia de revoluções futuras".
Nota negativa no festival para o incumprimento dos horários e a antestreia sem afinação do design de luzes do espetáculo de grande formato "Vertico", uma coprodução Imaginarius e das companhias Décadas de Sonho e Persona.
