Os últimos 10 anos no Norte em números

Há regiões do Norte no "fio da navalha"

Há regiões do Norte no "fio da navalha"

Nos concelhos entalados entre o litoral industrializado e o interior despovoado, há muitos jovens sem qualificações nem ocupação, que tanto podem ser uma força de crescimento quanto uma bolsa de pobreza, alerta o geógrafo humano João Ferrão.

Num Norte mais envelhecido e urbanizado, as cidades devem ser laboratórios de inovação e os territórios de baixa densidade têm de se diferenciar para sobreviver. Já as áreas situadas entre os polos urbanos e os despovoados vivem no "fio da navalha": os seus jovens sem qualificações nem ocupação tanto podem ser uma força de crescimento quanto uma bolsa de pobreza. Cada região exige soluções diferentes e integradas, apela o geógrafo humano João Ferrão.

O interior está mais envelhecido, tem menos gente, mas está mais urbano. Como lê essa dinâmica?

As cidades médias, como Bragança, Vila Real, Chaves, continuam a ter dinâmica demográfica, social e económica. E temos um fenómeno de concentração de população nas sedes de concelho em detrimento das zonas rurais desses mesmos concelhos. A perda de população rural é negativa mas, num contexto global de perda demográfica, a concentração nas freguesias mais urbanas é positiva.

É o interior a urbanizar-se?

Seria intelectualmente desonesto dizer que todos os municípios têm as mesmas oportunidades. A perda demográfica é inevitável em terminadas áreas. Temos é de gerir territórios que hoje já são de baixa densidade e que, amanhã, serão mais ainda. Deve olhar-se com muita atenção para as cidades médias e sedes de concelho para manter dinâmicas demográficas e económicas que lhes permitam funcionar como âncoras. E gerir o resto do território em função das pessoas que lá estão e têm direito a bens e serviços de interesse geral.

Como incentivar essas âncoras?

Olhar para o interior como se fosse uma ilha é errado, tem de ser articulado com o litoral e o mundo global. Se o Governo optar uma visão mais socioecológica da economia vai valorizar as áreas rurais, dar aos seus produtos e atividades a centralidade que perderam no processo de modernização. Basta olhar para outros países: a dinamização do mundo rural pressupõe que os seus ativos tenham um papel mais central no modelo económico. É precisa uma visão sistémica, como o caso da vinha e do vinho. Evitou as vias localista (produzir para o local) e da globalização desterritorializada (na qual os produtos não têm origem). É um produto glocal [ao mesmo tempo global e local].

Que desafios se colocam às cidades médias e sedes de concelho?

As cidades são locais de criatividade e inovação. Temos de as ver como espaços laboratoriais experimentais, onde a relação das empresas, universidades e autarquias é importante. Durante muito tempo, tiveram uma trajetória semelhante. Têm de se diferenciar entre si. Há universidades a desenvolver soluções na mobilidade elétrica: devia haver estímulos para que Braga ou Vila Real fossem laboratórios de experimentação desses protótipos. Assim garante-se a aplicação precoce nas cidades e as autarquias, populações e empresas ficam conscientes de que podem beneficiar dessas experimentações e, até, desenvolver novos produtos.

E se correm mal?

Tudo quanto é experimental pode correr bem ou mal, mas há sempre uma aprendizagem. Qual é a alternativa? No Portugal 2020, as prioridades foram definidas pela Comissão Europeia, iguais para todos os países. É um erro crasso! É bom que os municípios respondam de forma eficiente e eficaz aos estímulos externos. Mas também é bom que haja dinâmicas de criatividade e inovação, paralelas ao esforço de mera aplicação do Portugal 2020.

O Porto perdeu 25 mil habitantes. Como inverter o despovoamento?

Nas grandes cidades, há uma cratera, o "efeito donut": os centros declinam ou são apanhados pelo turismo, que expulsa os residentes. Os subúrbios, em geral, são dinâmicos. Depois há uma coroa grande que, do meu ponto de vista, é a mais problemática. Inclui Paredes, Valongo, Gondomar, Felgueiras, Lousada, Paços de Ferreira, Marco de Canaveses, entre outros.

Qual é o problema?

Mantêm uma estrutura familiar grande, índices de juventude positivos, mas níveis de qualificação jovem muito baixos. Há uma presença de NEET grande (não trabalham, estudam ou fazem formação). Apesar do dinamismo industrial, têm uma certa dependência funcional do Porto e a grande componente de jovens desqualificados é uma incógnita: serão um recurso para a região ou uma bolsa de desemprego? Há situações no fio da navalha: tanto podem ser uma grande oportunidade como uma fonte de problemas. Estas regiões não têm a resiliência da inovação das grandes cidades nem a resiliência comunitária de Trás-os-Montes...

Vê o Porto a recuperar dinâmica?

As cidades maiores são muito expostas à crise, mas têm maior capacidade de resiliência. Estão lá as empresas mais inovadoras, as instituições públicas, as universidades, capazes de concretizar uma agenda de transformação. Não se pode prever a velocidade dessa transformação, mas as sementes estão lá.

Os últimos 10 anos no Norte em números

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