António Guterres

"É altura de os líderes ouvirem", pede o novo secretário-geral da ONU

"É altura de os líderes ouvirem", pede o novo secretário-geral da ONU

António Guterres tomou, esta segunda-feira, posse como secretário-geral da ONU.

O novo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, identificou como prioridade do seu mandato a prevenção de conflitos e defendeu a necessidade de mudanças na organização, após ter prestado juramento perante a assembleia-geral da ONU.

Prometendo a reforma profunda no sistema das Nações Unidas, apelou aos líderes mundiais: "É altura de os líderes ouvirem".

Guterres declarou-se preparado para se "envolver pessoalmente" na resolução de conflitos e sublinhou a necessidade de apostar na prevenção de conflitos como "a melhor forma de salvar vidas e de reduzir o sofrimento humano".

No seu discurso inaugural de 15 minutos, em que falou em inglês, francês e espanhol, o antigo primeiro-ministro português insistiu na ideia de um "contínuo de paz, da prevenção e resolução de conflitos para a manutenção de paz, construção de paz e desenvolvimento".

Sobre a reforma da organização que vai liderar nos próximos cinco anos, Guterres identificou "três prioridades estratégicas": o trabalho pela paz, o apoio ao desenvolvimento sustentável e a agilização da gestão interna da organização. "As Nações Unidas têm de estar preparadas para mudar (...). Não é útil para ninguém que demore nove meses a destacar um quadro para o terreno", defendeu.

O novo secretário-geral considerou também que, no caso de abusos sexuais na República Centro Africana, "o sistema das Nações Unidas não fez o suficiente para prevenir e responder aos crimes de violência sexual e exploração cometidos sob a bandeira da ONU contra aqueles que era suposto proteger", prometendo trabalhar de perto com os Estados-membros para que a "política de tolerância zero" seja "uma realidade".

Por outro lado, Guterres considerou que "um elo que falta na estratégia" da ONU "é o trabalho com os jovens", sustentando que as Nações Unidas devem "capacitar os jovens e aumentar a sua participação na sociedade e o seu acesso a educação, formação e empregos".

O novo responsável da ONU sustentou que o "medo está a conduzir" decisões em todo o mundo e defendeu a necessidade de "entender as necessidades" das pessoas, "sem perder de vista os valores universais".

Sobre o mundo atual, Guterres disse que a história "voltou com vingança", comentando: "Os conflitos tornaram-se mais complexos e interligados do que antes. Produziram horríveis violações da lei humanitária internacional e abusos dos direitos humanos. As pessoas foram forçadas a deixar as suas casas numa escala que não era vista há décadas. E uma nova ameaça emergiu, o terrorismo global", disse.

O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados apontou ainda que "a globalização e o progresso tecnológico também contribuíram para o crescimento das desigualdades" e "muitas pessoas foram deixadas para trás, mesmo nos países desenvolvidos".

"Tudo isto aprofundou a divisão entre pessoas e a classe política. Em alguns países, temos visto crescer instabilidade social e mesmo violência e conflito", disse.António Guterres apontou como um "paradoxo de hoje" que, apesar de maior conectividade, as sociedades estejam "cada vez mais fragmentadas".

"Queremos que o mundo que as nossas crianças vão herdar seja definido pelos valores consagrados na Carta das Nações Unidas: paz, justiça, respeito, direitos humanos, tolerância e solidariedade. Todas as grandes religiões os abraçam e devemos lutar para os refletir nas nossas vidas todos os dias", disse.

A missão das Nações Unidas é ir além "do medo do outro" e promover a confiança "nos valores e nas instituições que servem para proteger" as pessoas. "A minha confiança nas Nações Unidas será dirigida para inspirar essas confianças, enquanto faço o meu melhor para servir a nossa humanidade comum", concluiu.

"Tive sempre muita sorte na vida, em muitas coisas que me aconteceram, em muitas oportunidades da vida, primeiro na Revolução dos Cravos, depois a hipótese de servir no ACNUR as pessoas mais vulneráveis. E também tive muita sorte aqui, quando em vez do processo tradicional de seleção se optou por um processo aberto e isso acabou por me beneficiar", considerou.

Em declarações à comunicação social portugueses poucos minutos depois da cerimónia de juramento na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, o antigo primeiro-ministro português disse que o culminar deste processo o faz sentir "uma enorme responsabilidade".

"É uma confiança enorme que os países estão a pôr em mim em situações que são particularmente difíceis", disse.

A cerimónia aconteceu na sede da organização, em Nova Iorque, na sala da assembleia-geral, perante representantes dos 193 estados-membros, e foi antecedida por uma homenagem ao secretário-geral cessante, Ban Ki-moon, que fez o seu último discurso como secretário-geral perante a Assembleia-Geral.

Antes da sua intervenção, Guterres prestou juramento sobre a Carta das Nações Unidas.

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro, António Costa, participaram na cerimónia.

Ao final do dia, por volta das 18 horas locais (23 horas em Portugal continental), o presidente da República oferece uma receção para cerca de 800 pessoas, na Sala de Jantar dos Delegados, também na sede da organização.

António Guterres vai entrar em funções em 1 de janeiro de 2017, para um mandato de cinco anos.

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