Síria

Barbas aparadas e burcas queimadas festejam liberdade

Barbas aparadas e burcas queimadas festejam liberdade

Sorrisos lavados em lágrimas, niqabs em chamas, barbas aparadas ou um cigarro proibido numa face envelhecida alegrada, porque não.

As imagens da Síria que ontem enchiam a linha das agências internacionais de fotografia ilustravam com nota de esperança o fim da batalha de Manbij, cidade do Norte do país que pontuava o principal eixo de comunicação entre a fronteira turca, Alepo e Raqa, "capital" síria do autoproclamado Estado Islâmico (EI), e por onde passavam armas, jiadistas e abastecimentos de e para a Síria. Mostrar a pele das mãos, fumar, ou fazer a barba são simplicidades proibidas pelo EI, sob o jugo de quem os habitantes viviam há dois anos. Viram-se ontem.

Foram 73 dias de combates levados a cabo pela aliança de rebeldes curdos e árabes Forças Democráticas Sírias, apoiadas pela aviação da coligação internacional liderada pelos EUA, que terminaram com a libertação de dois milhares de civis sequestrados pelos jiadistas e usados como escudos humanos para assegurarem a saída da cidade sem ataques. Uma perda de monta para o grupo terrorista e uma vitória para os rebeldes, enquanto as forças do regime e russas optam por alvejar a parte de Alepo sob controlo de grupos rebeldes.

"Depois da libertação de Manbij, os elementos do EI deixam de conseguir viajar livremente de e para a Europa", garantiu o líder curdo sírio Salih Muslim, citado pela BBC. Depois de um alegado acordo com os rebeldes, os jiadistas deixaram a cidade numa coluna de 500 veículos a caminho de Jarablus, na fronteira com a Turquia. Mas o bloqueio de Manbij dificultará seguramente a entrada de combatentes do EI recrutados na Europa a caminho da base de Raqa. O passo seguinte será, segundo a coligação internacional, avançar para essa cidade da região este, já alvo de investidas das forças do regime sírio apoiadas pela aviação russa. As perdas do EI somaram-se ontem no Iraque, com a tomada pelo exército de território próximo de Mossul, e no Afeganistão, de onde veio a confirmação da morte do grupo extremista no Afeganistão e no Paquistão, Hafez Saïd, num ataque norte-americano.

Vitória fundamental para o YPG

A batalha de Manbij terá resultado na morte de 437 civis (105 crianças e 55 mulheres), 1019 jiadistas e 299 rebeldes, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que opera a partir de Londres com base numa rede de informadores.

A conquista da cidade tem uma importância capital para as Forças de Proteção do Povo, a milícia curda conhecida como YPG que integra a aliança rebelde e se afirma cada vez mais como a principal força contra o EI. Recorde-se que foi na YPG que se alistou o miliciano português Mário Nunes, desertor da Força Aérea Portuguesa que decidiu ajudar a combater os jiadistas no terreno. Para lá da vitória, a YPG, agora associada aos rebeldes sírios, consegue uma via aberta para entrar em território curdo além-Eufrates, definido como proibido pela Turquia, que teme ver nascer na região um Curdistão independente fruto da aglomeração de diferentes grupos curdos.

Num impasse continua a situação em Alepo, apesar da trégua diária de três horas definida pela aviação russa para permitir a entrada de ajuda humanitária na cidade cercada pelas forças do regime. Vários testemunhos davam conta da continuação dos bombardeamentos sobre Alepo, onde vivem 1,75 milhões de pessoas (1,5 milhões na zona ocidental nas mãos dos homens do presidente Bashar al-Assad). v

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