Paris

Estado Islâmico reivindica ataque que pode favorecer Le Pen nas eleições

Estado Islâmico reivindica ataque que pode favorecer Le Pen nas eleições

O grupo extremista Estado Islâmico reivindicou a autoria do ataque em que morreu um agente policial, nos Campos Elísios, em Paris, que pode beneficiar a extrema-direita nas eleições de domingo.

"O autor do ataque nos Campos Elísios, no centro de Paris, é Abu Yussef, "o Belga", e é um dos combatentes do Estado Islâmico (EI)", relatou a Amaq, órgão de informação oficial do autoproclamado Estado Islâmico, pouco tempo após o atentado, na quinta-feira à noite.

O anúncio da autoria do ataque surgiu muito rapidamente, o que não é comum para este grupo radical que está a perder território na Síria e no Iraque. A forma como o atentado foi reivindicado, como uma ação "direta", indicia que foi feito para a "coincidir com as eleições presidenciais francesas", cuja primeira volta se disputa no domingo, comentou Amarnath Amarasingam, investigador canadiano com trabalho na área do terrorismo, jiadismo e religião.

Uma tese suportada por Cas Mudde, especialista em populismo e política internacional, que recentemente esteve em Portugal. "Sendo um ataque direto do EI, é claramente orientado para influenciar as eleições presidenciais francesas, isto é, para dar gás a Le Pen", escreveu, no Twitter.

Questões de segurança nacional e ameaça do terrorismo islâmico têm sido temas importantes na campanha presidencial francesa. É natural que os eleitores pensem duas vezes antes de votar, procurando um candidato que dê mais garantias de defender o país. É aí que encaixa a narrativa de Le Pen, que defende o "restabelecimento do controlo das fronteiras" de França.

O ataque ocorreu a três dias da primeira volta da eleição presidencial francesa, que decorre sob vigilância elevada. A dirigente de extrema-direita Marine Le Pen e o conservador François Fillon anunciaram pouco depois que cancelaram as ações de campanha previstas para sexta-feira, último dia da campanha. Seguiu-se Macron, pouco depois.

À hora a que aconteceu o ataque, os 11 candidatos às presidenciais participavam num programa de televisão e todos expressaram solidariedade com as forças policiais.

"A luta contra o terrorismo deve ser a prioridade absoluta do próximo Presidente da República", sublinhou François Fillon, na última intervenção no programa de entrevistas de 15 minutos a todos os candidatos presidenciais, emitido pela cadeia pública "France 2".

O candidato independente liberal Emmanuel Macron, favorito nas sondagens para vencer as eleições, alertou que estas ameaças "farão parte do quotidiano nos próximos anos". Ao intervir no programa, sublinhou que a missão principal do chefe de Estado é, precisamente, proteger a população e defendeu que não há que "ceder ao medo" nem "dar a impressão de que se cedeu".

No debate, Marine Le Pen rejeitou a ideia de que as pessoas devem habituar-se ao "terrorismo islamista" e disse ter sentido "uma raiva surda" ao tomar conhecimento do ataque, porque, acredita, "não está a ser feito tudo para proteger" os franceses das ameaças terroristas.

Ataque com uma Kalashnikov

Um homem empunhando "com uma arma de guerra", disparou sobre uma carrinha da polícia que estava parada nos Campos Elísios, no centro de Paris, cerca das 21 horas de quinta-feira (20 horas em Portugal continental).

A porta-voz da polícia, Johanna Primevert, disse que o atirador parecia estar sozinho quando disparou contra um veículo da polícia, com uma "arma de guerra", uma espingarda Kalashnikov (AK47).

O porta-voz do ministro do Interior francês, Pierre Henry Brandet,disse que os agentes, que estavam no interior de uma carrinha, foram "diretamente visados" pelos disparos. O suspeito pôs-se em fuga a tentar acertar em outros polícias e acabou por ser abatido.

Um polícia morreu "e dois outros polícias ficaram feridos, assim como um turista", disse o presidente francês, François Hollande, poucas horas após o ataque, manifestando a convicção de se tratara de um ataque terrorista.

O chefe de Estado francês garantiu que as autoridades mantêm "vigilância absoluta e que todas as medidas que podem ser tomadas foram tomadas", garantiu, explicando que decorrerá na sexta-feira uma reunião de emergência, às 8 horas locais.

"Os meus pensamentos vão para a família do polícia morto e os entes próximos dos feridos", disse ainda Hollande, manifestando confiança e solidariedade para com as forças de segurança do país.

Autor dos disparos será francês, não belga

O autor dos disparos estava já identificado pelas autoridades como extremista e estava a ser investigado por ter manifestado intenção de matar agentes policiais.

Segundo novos dados revelados entretanto, Abu Yusuf pode ser apenas o "nome de guerra" de um francês com antecedentes com crimes contra a polícia e que recentemente jurou fidelidade ao Estado Islâmico, tendo prometido cometer um ataque em França.

Residia num apartamento em Seine-et-Marne, perto da capital francesa, onde decorriam buscas da polícia na noite de quinta-feira, que se prolongaram pela madrugada desta sexta-feira.

O procurador da República de Paris, François Molins, escusou-se a confirmar o nome do suspeito, limitando-se a afirmar que "a identidade do atacante é conhecida e está verificada".

A procuradoria francesa anunciou ter aberto uma investigação de terrorismo. O gabinete do procurador de Paris informou que agentes contra-terrorismo estão envolvidos na investigação do ataque, nomeadamente para perceber se "o suspeito beneficiou da ajuda de algum cúmplice", disse Molins.

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