
O Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi
João Relvas/EPA
O líder da Renamo disse, esta terça-feira, que vai aceitar o convite do Presidente de Moçambique para indicar os nomes do seu partido para o reinício do diálogo de paz, após a deterioração da crise política e militar no país.
"Quanto à criação de uma equipa [de negociadores], quero já tranquilizar: daqui a dois dias, vou anunciar", afirmou Afonso Dhlakama, em entrevista ao principal canal televisivo privado moçambicano, STV, acrescentando que, na quinta-feira, serão divulgados "os nomes dos três membros da Renamo [Resistência Nacional Moçambicana] que vão dialogar sobre a agenda com o grupo de Jacinto Veloso [um dos elementos indicados pelo Governo]".
O presidente da Renamo respondia a um convite hoje endereçado pelo chefe de Estado, Filipe Nyusi, para indicar uma equipa para o reinício do diálogo sobre a atual crise política e militar no país.
Na entrevista hoje concedida à STV, Dhlakama, que tem condicionado a retoma das conversações ao envolvimento da comunidade internacional, afirmou que deseja "negociações sérias" para que "isto de uma vez para sempre seja terminado", referindo-se ao longo período de confrontações com o Governo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), no poder há 40 anos, após uma guerra civil ao longo de mais uma década e meia, terminada como o Acordo Geral de Paz em 1992, e de nova instabilidade política e militar desde 2013.
"Já somos velhos. Temos filhos e já não temos idade para andarmos no mato a matar-nos", declarou o líder da oposição à STV.
Nyusi pediu hoje para indicar uma equipa para se juntar aos nomes por ele já apontados, visando o início do diálogo sobre a atual crise e afastou a existência de mediação nesta fase do processo.
"O chefe do Estado moçambicano defende que não haja mediação para a criação da comissão acima referida, pois a retomada do diálogo ocorrerá como resultado dos termos de referência a serem definidos pela equipa conjunta", lê-se no comunicado.
A bancada parlamentar da Renamo marcou hoje à noite uma conferência de imprensa para quarta-feira à tarde.
O porta-voz da Renamo declarou hoje à Lusa que a carta de Nyusi é uma resposta ao pedido que o principal partido de oposição formulou ao Presidente moçambicano em março, no sentido de aceitar o envolvimento da União Europeia, Igreja Católica e do Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, como mediadores.
As negociações entre o Governo moçambicano e a Renamo estão paralisadas há vários meses, depois de a Renamo se ter retirado do processo, alegando falta de progressos e de seriedade por parte do executivo.
Nos últimos meses, Moçambique tem conhecido um agravamento da violência política, com relatos de confrontos entre a Renamo e as forças de defesa e segurança, além de acusações mútuas de raptos e assassínios de militantes dos dois lados e ainda ataques atribuídos pelas autoridades ao braço militar da oposição a alvos civis no centro do país.
O líder da Renamo está supostamente refugiado numa base na Gorongosa, província de Sofala, na sequência da invasão da sua casa na Beira, em outubro do ano passado pela polícia, alegadamente numa operação de recolha de armas, depois de a sua comitiva ter sofrido duas emboscadas no mês anterior na província de Manica.
Apesar dos seus persistentes apelos para o diálogo, Nyusi tem recusado mediação internacional, tendo afirmado, na presença do seu homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, no início do mês em Maputo, que seria preciso "um litígio, um antagonismo fatal em que as pessoas não se acreditam" para se "dar o passo que está à altura".
O principal partido da oposição recusa-se a aceitar os resultados das eleições gerais de 2014, ameaçando governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.
