1926-2016

Morreu Fidel, o comandante de Cuba

Morreu Fidel, o comandante de Cuba

O histórico líder cubano, Fidel Castro, morreu, esta sexta-feira, aos 90 anos. VER ESPECIAL AQUI

"O comandante-chefe da revolução cubana morreu esta noite às 22.29 horas", afirmou o irmão Raúl Castro, que sucedeu a Fidel no poder em 2006.

O corpo do pai da revolução cubana vai ser cremado, de acordo com a sua "expressa vontade", indicou emocionado Raúl Castro, num breve discurso ao país que concluiu com a expressão "Até à vitória, sempre". Cuba decretou nove dias de luto nacional.

A cada ausência mais prolongada de Fidel Castro, desde que se afastou do poder, em 2006, sucediam-se os rumores sobre o seu estado de saúde e a proximidade da sua morte.

Mas o líder histórico cubano respondia sempre a essas "mentiras", através de fotografias de encontros com líderes internacionais ou artigos na Imprensa oficial, criticando "as aves agoirentas".

Fidel sentia que a morte estava perto. No passado dia 19 de abril, num congresso do Partido Comunista de Cuba em Havana, falou pela primeira vez da sua morte. "Vou fazer 90 anos (...) Pronto, serei como todos. A todos chega a sua hora", disse, reconhecendo que seria um dos seus últimos discursos.


Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu a 13 de agosto de 1926, em Cuba. O pai, Angel Castro, era um emigrante galego bem sucedido com largos hectares de plantações de cana-de-açúcar. A mãe, Lina Ruz González, trabalhava na propriedade.

Desta relação, que chegou a casamento alguns anos mais tarde, nasceram também Ângela, Ramón, Raul, Juana, Emma e Agustina. Ninguém suspeitava que o menino Fidel tinha no seu destino um percurso revolucionário que o levaria a comandar os destinos da ilha.

Uniforme verde e charutos

Os números são esmagadores: esteve 49 anos no poder, "enfrentou" dez presidentes norte-americanos, resistiu a inúmeras tentativas de derrube organizadas e apoiadas pela CIA e 70% dos cubanos não conheceu outro líder, até à renúncia, em 2008.


O uniforme militar de cor verde era uma das imagens de marca de Fidel Castro. Também os longos discursos, escritos em dezenas de páginas e proferidos durante horas e horas. E ainda os tradicionais e muito afamados charutos cubanos que exibiu publicamente durante anos.

Alegando razões de segurança, pouco era divulgado sobre o lado mais pessoal e familiar da sua vida. Sabe-se que casou com Mirta Diaz-Balart (1948) de quem teve o primeiro filho - Fidel Castro Diaz-Balart, conhecido por "Fidelito" - e se divorciou. Na década de 50 nasceram Alina Fernández-Revuelta e Jorge Angel Castro, frutos de duas relações diferentes. A companheira de vida foi Dalia Soto del Vale, uma professora que o líder cubano conheceu no início dos anos 60 durante a campanha de alfabetização e com quem casou em 1980. Desta união nasceram Alexis, Alexander, Alejandro, António e Angel.

Ídolo ou tirano?

Os apoiantes idolatram o espírito revolucionário que levou o jovem advogado a enfrentar o regime corrupto de Fulgêncio Batista, o que lhe custou a prisão e o exílio no México.

Regressou a Cuba com apoio de outros que, como ele, defendiam um futuro de maior justiça social para o povo cubano. "Che" Guevara era um deles. Com pouco mais de 30 anos, Fidel já era responsável do governo.

Lançou uma campanha de alfabetização que reduziu a percentagem de analfabetos a cerca de 2%, decretou o acesso gratuito ao ensino nos diferentes anos de escolaridade, garantiu atendimento médico a toda a população cubana, ao mesmo tempo que nacionalizou as empresas estrangeiras, atingindo o forte investimento norte-americano que então existia em Cuba. Washington impôs um bloqueio económico como forma de pressão, mas Fidel nunca cedeu, conquistando a admiração de muitos por fazer frente ao "imperialismo americano".

No reverso dos argumentos estão as acusações de violação dos direitos humanos, perseguição política dos opositores com detenções e execuções, a repressão contra a liberdade de expressão, para além de manter a população "presa" na ilha, o que levou muitos milhares a procurarem melhores condições de vida na "vizinha" Florida (EUA), de forma clandestina, a bordo de pequenas e frágeis embarcações.

"Gostem ou não os seus detratores, tem um lugar reservado no panteão mundial das figuras que, com mais empenho, lutaram pela justiça social e que mais solidariedade praticou em favor dos oprimidos", escreveu Ignacio Ramonet, diretor do jornal "Le Monde Diplomatique", no livro "Fidel Castro - Biografia a duas vozes".

Incerteza e expectativa

Surpreendeu o mundo a 31 de julho de 2006 ao anunciar a transferência provisória do poder para o irmão Raul Castro, porque tinha de ser submetido a uma cirurgia devido a uma hemorragia intestinal.


O afastamento forçado prolongou-se durante meses, com escassas aparições públicas. O uniforme militar deu lugar ao fato de treino da seleção cubana nos (poucos) vídeos e fotografias divulgados através dos meios de comunicação oficiais do regime. A fragilidade da voz foi trocada pela acutilância das palavras escritas em diversos artigos de reflexão, nos quais as políticas de Washington e temas internacionais da atualidade foram sendo tema central.

A primeira vez que entreabriu a porta da saída foi em dezembro de 2007. "O meu elementar dever não é aferrar-me muito a cargos, ou muito menos obstruir a chegada de pessoas mais jovens ao poder", fez saber numa mensagem lida na televisão. Dois meses depois chegou a confirmação: "Não aspiro, nem aceitarei - repito - não aspiro, nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado", escreveu na edição online do diário oficial "Granma". O irmão Raul Castro, então com 76 anos, foi o escolhido para lhe suceder.

A longevidade e resistência de "El Comandante" já há alguns anos que levantava a dúvida: como será o futuro de Cuba depois de Fidel? Apesar de nos últimos anos com Raul no poder terem ocorrido algumas mudanças para "atualizar" o socialismo cubano e superar a crise económica da ilha - como a ampliação do setor privado, a autorização de viagens dos cubanos para o estrangeiro e a legalização da compra e venda de imóveis e de viaturas - a resposta continua (ainda) rodeada de incerteza e expectativa.

Fidel Castro ainda viveu para, aos 88 anos, ver Cuba e os Estados Unidos aproximarem-se, com o anúncio "inesperado" do restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, congeladas desde 1961. E voltou a mostrar a sua veia revolucionária aquando da visita histórica do presidente Barack Obama à ilha, ao defender que os cubanos correram "risco de um enfarte" ao ouvir Obama falar de cubanos e norte-americanos como "amigos, família e vizinhos". O fim do embargo imposto por Washington continua por resolver.

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