Bernardo Pires de Lima

"O disparate em política costuma ter perna curta"

"O disparate em política costuma ter perna curta"

Em entrevista ao JN, Bernardo Pires de Lima, o investigador do IPRI e da Universidade Johns Hopkins, traça um retrato do fenómeno comunicacional que é a intervenção de Donald Trump no Twitter.

É aceitável que a principal janela de comunicação com o Mundo do presidente eleito dos EUA seja a conta de uma rede social? Que vantagens e desvantagens pode trazer-lhe essa forma de comunicar?

É aceitável mas não desejável. A impulsividade está na natureza das redes sociais e o que um político mais precisa, para mais na posição de Trump, é de sensatez, equilíbrio e muitas vezes gestão do silêncio. A vantagem é a de continuar a falar para a sua base eleitoral, que aprecia a prática. A desvantagem é o auto-desgaste, a infantilização do cargo e a deterioração da mensagem política.

Para Donald Trump continuar a ser coerente com o estilo que tem imprimido à sua forma de fazer política, tanto interna como externamente, tem de manter ativa a sua conta de Twitter depois da nomeação?

Ativa mas não necessariamente ao ritmo alucinante de disparates que a tem pautado. Penso que vai ser forçado a moderar o ritmo, o que não quer dizer que modere o tom.

Há analistas que relativizam o impacto desta forma de ação, alegando que, no passado, os presidentes dos EUA usaram outras ferramentas comunicacionais para ter ascendente mediático, como o telégrafo, a rádio ou a televisão. Concorda?

Não. A preparação que exige uma comunicação por rádio ou televisão não está presente no Twitter. E a gritaria que ali circula não ajuda a inverter o tom e a forma dos tweets de Trump, aliás amplifica-os. Por isso é tão tentador para ele.

Será o Twitter também uma forma mais eficaz de Trump chegar ao eleitorado sem "filtros", dada a sua relação conflituosa com os meios de Comunicação Social?

Sim, é um método para contornar a imprensa e marcar agenda nos termos em que Trump quer fazer, controlando o 'timing' e o conteúdo. Mas não vai ser exclusivo. Mais cedo ou mais tarde, ele ou membros relevantes da administração (caso do vice-presidente Pence) vão precisar de algum nível de conciliação com a imprensa tradicional para credibilizar a mensagem e as personagens. O disparate em política costuma ter perna curta.

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