Pedrógão Grande

Mãe perdeu filho na escuridão mas bombeiro encontrou-o

Mãe perdeu filho na escuridão mas bombeiro encontrou-o

No sábado à noite, Telma Coelho, de 31 anos, perdeu o filho de quatro anos quando fugia com ele do incêndio de Pedrógão Grande, a pé, numa estrada com muito fumo e praticamente nenhuma visibilidade, entre as freguesias de Vila Ficaia e Graça.

Mas o menino acabaria por ser encontrado, inanimado, por um bombeiro. Só quatro horas depois, por volta das 24 horas de sábado, graças a um primo que se encontrava em Paris, a família veio a saber que a criança sobrevivera e estava no Hospital Pediátrico de Coimbra.

"Foi um milagre", diz o tio e padrinho do menino, Diogo Coelho, de 34 anos, referindo-se em especial à situação do sobrinho, mas não só. Nove pessoas da sua família tiveram de fugir ao fogo e várias se perderam umas das outras. "Foram horas muito angustiantes, porque ninguém sabia de ninguém", desabafa.

No sábado, Diogo Coelho, era para ir jantar, com a mulher e a filha, a casa da irmã, na aldeia de Lameira Fundeira, freguesia de Vila Ficaia. Aquele empresário tem uma casa na mesma aldeia e outra no lugar vizinho de Mó Pequena, mas vinha de Coimbra. "Sabia do incêndio, mas desconhecia a gravidade da situação", explica. Ao chegar ao cruzamento para a Mó Pequena, percebe tudo. "Você fuja daqui para fora", atira-lhe um militar da GNR, o "único" que Diogo encontrou por aquelas paragens.

Diogo percebe naquele momento que só tinha uma coisa a fazer, antes de fugir. Ir a casa da irmã e convencê-la a fugir também, com o marido, os dois filhos, a avó e o pai. Este, afinal, já tinha abalado. Os outros estavam determinados a fazer o mesmo. Há algum tempo que se viam labaredas à volta da aldeia. Diogo arrancou então dali com a mulher e a filha, a seguir foi a irmã, ao volante de um carro, e, por fim, o marido, a conduzir outra viatura da família.

No meio de muito fumo, Diogo consegue escapar ao fogo nas bermas e apanhar o IC8, onde já se sente mais seguro. Mas a irmã e o cunhado despistam-se, em momentos diferentes. A irmã percebe que tem de deixar o carro e corre com o filho de quatro anos, asmático, em direção ao lugar de Outão, freguesia da Graça. Mas, conta o irmão, Telma sente o filho cair e perde-o de vista. O fumo fez cair a noite mais cedo, Telma não vê nada e está queimada nos braços, nas pernas, nos pés. Desesperada, corre até Outão, onde grita por ajuda. Alguém telefona para os bombeiros, a alertar para desaparecimento de uma criança. Chama-se António.

Lá atrás, o marido de Telma despista-se. Tem um filho de nove meses e a avó da mulher no carro, que fica imobilizado. A idosa não consegue sair. O condutor decide correr até uma casa ali perto, onde deixa ficar o bebé, para voltar sozinho e tentar resgatar a avó por afinidade. Mas quando regressa ao carro, ela lá não está. Acabou por conseguiu escapar do carro sozinha e chegou a um café. Mais tarde, pelas quatro horas da madrugada de domingo, os bombeiros levam-na dali para um hospital de Coimbra, onde ficará internada, com várias costelas partidas. O marido de Telma há de apanhar boleia num jipe e livrar-se do pior.

Telma também é levada para os Hospitais da Universidade de Coimbra. Mas sem saber de António, o filho de quatro anos. Ninguém da família sabe. "Foram horas de muita angústia", repete Diogo. Mas, já depois das 23 horas, Diogo está no Avelar com o pai e recebe um telefonema de França. É o primo António, António Ferreira Gomes, ex-presidente da Autoridade da Concorrência, que agora dirige a Divisão da Concorrência da OCDE. Estava a acompanhar os acontecimentos de Pedrógão através da comunicação social portuguesa e viu uma notícia que falava do transporte de uma criança de helicóptero para Coimbra.

A primeira reação é telefonar para o Hospital Pediátrico de Coimbra, mas é o pai de Diogo quem arranca para esta cidade e confirma que o neto, encontrado por um bombeiro, deu entrada naquela unidade para crianças, inconsciente. "Está com oxigénio", segundo Diogo Coelho, "mas estabilizado".

Nos lugares de Mó Pequena e de Lameira Fundeira, as casas das famílias de Diogo e de Telma também escaparam ao fogo.

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