Carvalho da Silva

Capacitar para os direitos

No passado mês de abril, a Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado (APICCAPS) e a Federação dos Sindicatos do Setor Têxtil (FESETE) concluíram a negociação do Contrato Coletivo de Trabalho (CCT) para a fileira do calçado, tendo como conteúdo mais relevante a eliminação da discriminação profissional e salarial entre homens e mulheres. Vários órgãos de Comunicação Social noticiaram este importante facto, mas abordando-o apenas conjunturalmente e com quase total ausência de pronunciamento sindical. A dinâmica neoliberal que vivemos e que influencia quase tudo e todos só abre espaço para os sindicatos quando é para os tratar como réus.

Carvalho da Silva

Avançar com os pés na terra

Os dados sobre o crescimento económico no primeiro trimestre deste ano, a redução do desemprego e a criação de emprego que se vão observando, o surgimento de investimentos pontuais em áreas estratégicas para o desenvolvimento, os sinais de vitalidade em alguns setores de atividade e os efeitos práticos e simbólicos da saída do país do Procedimento por Défice Excessivo são, sem dúvida, boas notícias para os portugueses. Contudo, a análise objetiva aos fatores que estiveram na base desses resultados, as fragilidades em que alguns assentam e, acima de tudo, uma observação atenta das carências com que se continua a deparar uma parte significativa das famílias portuguesas aconselham uma travagem nas euforias e devem conduzir-nos a uma reflexão sobre as opções políticas a assumir no imediato, com vista a um horizonte estratégico mais seguro.

Carvalho da Silva

A política em fuga

Vivemos tempos paradoxais no nosso espaço público. A política e sobretudo o comentário político ocupam significativo espaço nos mais diversos meios de Comunicação Social, nomeadamente em canais de televisão, jornais, páginas da Internet, redes sociais. No entanto, o debate político raramente pareceu tão estreito nos seus temas e abordagens. Com honrosas e esporádicas exceções, as análises convergem nas velhas interpretações e posições do "centrão", alimentadas por uma relação, por vezes de manifesta cumplicidade, entre jornalistas, ex-detentores de cargos políticos e atuais atores políticos. A informação que recebemos surge-nos "contextualizada" e "cristalizada" em opiniões esvaziadas de capacidade crítica. Nessa formatação do comentário político, não cabem alguns dos fundamentais conteúdos novos e das dinâmicas que a conjuntura política que vivemos vai despoletando.

Carvalho da Silva

Um novo Centrão

Os últimos anos têm sido marcados pela implosão eleitoral da social-democracia europeia. Este movimento começou na Grécia, com o quase desaparecimento do PASOK, passou por Espanha, atravessou a Holanda, está em curso em França com as eleições presidenciais e legislativas e, aparentemente, terá mais uma sequela no próximo mês no Reino Unido. As razões para este colapso têm raízes nas trajetórias políticas específicas de cada país e de cada partido, mas esta coincidência geográfica e temporal não é alheia às causas que geraram e alimentam a crise económica, financeira e social sob a qual vivemos há quase dez anos. Desde então, os partidos socialistas/sociais-democratas têm oscilado entre uma adesão mais ou menos entusiástica a políticas de austeridade e tentativas de rutura pela Esquerda. Esta via tem sido minada por virulentas oposições internas alinhadas com o centrão político - agora também designado "centro extremo" - e por ambiguidades em relação à UE.

Carvalho da Silva

França, 2.ª volta e legislativas

Macron e Le Pen disputam no próximo domingo a segunda volta das eleições presidenciais francesas. A escolha eleitoral é entre um candidato neoliberal e uma candidata neofascista. É a segunda vez que a extrema-direita chega à disputa final na eleição de um presidente. Contudo, há diferenças muito significativas entre os dois momentos. Em 2002, Jean-Marie Le Pen - que tinha na sociedade uma marca fascista mais vincada do que a da sua filha atualmente - ficou com 17,8% dos votos na segunda volta, tendo partido de 16,8% na primeira. Agora, Marine Le Pen parte de 21% e prevê-se que possa alcançar bem mais de 30% dos votos.