Ter amigos e a amizade é algo extraordinário nos tempos que correm, em que o egoísmo impera. A vida separa as pessoas, assim como a crise e a política. Todavia, há muita culpa em cada um de nós. Se fizermos uma lista dos amigos que víamos há uns anos, quantos vemos actualmente? Quantos deixamos de ver definitivamente?
Pouco fazemos, ou nada, para voltar a vê-los e encontrá-los. Parece que custa pegar no telemóvel e ligar a perguntar como estão e têm passado. A sociedade do paradoxo: tanta facilidade com as novas tecnologias para contactar pessoas e tanto afastamento e indiferença. Parece que os amigos são do Facebook, mas não são. Não há nada como estar tête-à-tête com um amigo ou amiga ver o seu olhar, as suas expressões, abraçá-lo e sentir o seu cheiro.
Alguns amigos e amigas que tive ao longo da vida custa-me deixar de vê-los e deixar de estar com eles. Se calhar não eram amigos, mas como diz Javier Marias, passaram a ser "os conhecidos esquecidos". Querelas, decepções, ingratidão, doenças são algo que ninguém escapa ao longo de uma vida com algumas amizades. A amizade é algo que tem que ver com lealdade, cumplicidade e um passado comum, que houve.
Sinto tristeza de deixar de ver alguns amigos que conheci há alguns anos. Entre o à-vontade de me abeirar deles e falar de tantas coisas. Sinto falta disso e com o decorrer dos anos não é tão fácil fazer novos e verdadeiros amigos.
Muitas vezes não sabemos porque se desvanece uma amizade, sem explicação plausível e de uma forma abrupta. Então se for uma verdadeira amizade causa maior incompreensão e perplexidade.
A relação deixou de existir, parecem estranhos, porventura se vir esse amigo ou amiga na rua fingem não me ver e se puderem até evitam cumprimentar-me.
Porém, é quase impossível que essa antiga amizade saia da nossa mente. As coisas mudam vai-se lá saber porquê, mas não se pode apagar o passado.
A verdadeira amizade não é receber, é dar. Não é magoar, é incentivar. Não é descrer, é crer. Não é criticar, é apoiar. Não é ofender, é compreender. Não é humilhar, é defender. Não é julgar, é aceitar. Não é esquecer, é perdoar. Mas também é respeitar um passado com momentos marcantes na nossa vida e nunca deixar de falar.
As amizades desaparecidas causam perplexidade e nostalgia quando damos conta que já não estão nas nossas vidas mas que já fizeram parte dela. Contudo, quem deixou de ser amigo nunca foi amigo. A verdadeira amizade não se quebra, em qualquer circunstâncias da vida, deve ser sempre a mesma.
*FUNDADOR DO CLUBE DOS PENSADORES
O autor escreve segundo a antiga ortografia
