Opinião

A Geografia e o futuro desejado

A Geografia e o futuro desejado

A compreensão espacial dos processos de transformação constitui uma base essencial da formação de cada um de nós, considerando a nossa relação com o ambiente e a interação social entre todos, fundada num dado âmbito territorial.

Este papel da Geografia no ensino está intimamente ligado a um outro, de investigação para um melhor ensino, o que leva os geógrafos a especializações cada vez mais diversificadas e aprofundadas, ao mesmo tempo que o conhecimento teórico se completa com o empírico e nas aprendizagens se valorizam tanto o conhecimento codificado como o tácito.

Nas últimas décadas, um terceiro pilar tem emergido entre os deveres da ciência: o de responsabilização social para a promoção de desenvolvimento e bem-estar. É um olhar sobre o conhecimento como algo mais do que aquilo que se acrescenta (por investigação) e se transmite (por ensino), interpelando-nos para enfrentar desafios contemporâneos com expressão diferente a escalas diversas e especificidades de cada contexto - como os das alterações climáticas, das migrações e despovoamento/concentração de pessoas e atividades, do aumento das desigualdades, entre tantos outros - que estará em causa nos dias 13 e 14 de outubro: ver http://futurodesejado.wixsite.com/geografia para informações e inscrições.

A reflexão para uma ação mais adequada contará com investigadores (professores universitários e geógrafos também, na maioria), portugueses, brasileiros e galegos, numa "internacionalização em português", onde o galego é visto como variante - ou será o português que é variante da língua nascida na Galécia? - e o brasileiro não é só sotaque doce, mas o português mais falado no Mundo. O encontro tem dois dias intensos - e gostosos, espera-se - de mesa-redonda, painéis de debate, sessões paralelas e saídas à noite, mais um fim de semana reservado aos convidados, como hóspedes da Câmara de Resende e Dolmen, partilhando a hospitalidade de Amarante, Marco de Canaveses e Paredes.

Não estará em causa apenas o ultrapassar-se de vez a associação simplista da Geografia a mapas, referências e descrições que ainda povoa a cabeça de alguns dos mais velhos. O que se pretende é mesmo ir além duma visão da Geografia restrita ao papel de ciência de educação e de investigação, porventura de crítica social também, valorizando-se essencialmente a sua expressão propositiva e de investigação-ação. Afinal, como conseguimos nós demonstrar que o desenvolvimento de base territorial é o mais promissor para a promoção da riqueza, da inclusão social e do bem-estar, em várias escalas e prolongamentos no tempo? Como o fazemos hoje e como o poderemos fazer melhor no futuro?

Estas são as perguntas. Relativamente às respostas, apenas lembro que, em áreas de baixa densidade ou em espaços metropolitanos, as políticas e as ações são diferentes - cada vez mais diferentes, tendo eu a pensar -, o que é prova suficiente que a Geografia importa. Importa também - muito - quando se pensa no modo mais adequado de encontrar um futuro melhor para os que vivem ou irão viver num bairro degradado, junto a uma via com trânsito intenso; em áreas turísticas e propensas a cheias, em espaços ambientalmente protegidos de montanha ou numa planície quase despovoada.

De facto, as desigualdades de base espacial, como outros problemas sociais, também económicos e ambientais, variam de lugar para lugar, pelo que não se combatem nunca da melhor forma com políticas iguais em todo o lado, ainda que certas expressões possam e devam ter âmbito global, como é o caso dos Direitos do Homem. Porque, regra geral, os direitos à habitação, à saúde e à mobilidade, por exemplo, ou a prevenção e minimização de desastres, entre outros aspetos que importam a todos, carecem de respostas específicas. Além disso, mais desafiante para todos é considerar-se que, além da necessidade de haver conhecimento geográfico para se adotar as melhores soluções em cada contexto territorial, é normalmente na forma como as diferentes políticas e ações se combinam num mesmo lugar - e no modo como todos se sentem envolvidos na sua construção - que está a "magia" que permite aumentar a eficiência e fazer-nos coletivamente mais capazes de ir ao encontro do futuro desejado.

Sim, a Geografia importa. Muito!

* GEÓGRAFO

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