Recentemente, a sociedade foi confrontada com uma nova ameaça, divulgada pelos meios de comunicação social: o jogo da "Baleia Azul". Vivemos num mundo global onde as ameaças são permanentes, também elas globais, e viajam até nós através de um simples clique. Contudo, as ameaças (as "baleias"), sempre existiram e vão continuar a existir. Aparecem com outros formatos, com outras cores, com outras vestes, a maior parte das vezes "camufladas", mas são as "baleias" que já em outros tempos existiam.
A palavra suicídio apresenta uma conotação emocional forte e incomoda. É um assunto muito complexo que, normalmente, não está associado a um único motivo. Os dados da OMS referem que o suicídio é a terceira causa de morte em crianças e adolescentes entre os 10 e os 24 anos e a segunda causa de morte entre os 15 e os 29 anos, e a depressão constitui um dos principais motivos do suicídio.
Mas o que faz com que os adolescentes sejam vulneráveis ao suicídio?
Das características próprias da adolescência, destaca-se a tentativa de construção de autonomia em relação à família e a construção de um "self" integrado, que leve à identidade própria, processo que marca o final da adolescência. Ora, os comportamentos de risco são frequentes neste processo, em que o adolescente se quer afirmar. Por vezes, é incapaz de confrontar o desafio e lidar com ele com sucesso, sendo fundamental o apoio dos pais e de pares. Uma vulnerabilidade biológica para a depressão, juntamente com a falta de aconselhamento e apoio, pode culminar num quadro depressivo que, camuflado, passa despercebido a quem está menos atento! Se juntarmos a estes fatores a vulnerabilidade ao contágio, característica também desta fase do desenvolvimento, somam-se ingredientes explosivos que podem "rebentar" a qualquer momento.
Muitos são os fatores de risco, descritos na literatura científica, para o suicídio entre os adolescentes. Os meios de comunicação social também nos vão dando a conhecer alguns deles. Mas, tendemos a ignorá-los ou a negá-los. Será mais fácil... E desculpas não faltam... Mas este é um problema real, que não pode ser olvidado por ninguém. Porque esses são outras "baleias" que andam por aí, as dos adultos! E é preferível pensar que só acontece aos outros. Mas cuidado, que há exceções.
"Baleias azuis" há e haverá sempre. Temos, sim, que estar preparados e informados para as enfrentar e ultrapassar.
Tal como a "Baleia", o conhecimento deve ser global, para a podermos enfrentar em qualquer momento. É nossa responsabilidade, enquanto sociedade... É nossa responsabilidade, enquanto seres sociais. É nossa responsabilidade, enquanto pais.
Concluindo, não se torne a vida num jardim zoológico, onde às "baleias" se juntam as avestruzes, com a cabeça enterrada (para não ver).
Seremos sempre vistos.
DOCENTE, PSICÓLOGA CLÍNICA, NEUROPSICÓLOGA
