Opinião

Campanha suja

Parece mesmo que alguém, numa súbita inspiração cósmica, montou uma campanha para tramar presidentes espalhados pelo Mundo, tratando de os envolver em enredos que parecem saídos de um universo ficcional, mas que mesmo o mais engenhoso argumentista teria dificuldade em arquitetar. Infelizmente, a realidade tem-se revelado bastante mais surpreendente.

Quantas estrelas dariam a um filme em que um empresário e protagonista de "reality shows" consegue ser eleito para o lugar de homem mais poderoso do Mundo, contando como ajuda a investigação que o chefe do FBI fez à sua rival, para depois o vir a demitir, alegadamente pela forma como conduziu essa investigação? Inverosímil, poucas estrelas. E se acrescentarmos que o mesmo presidente pediu ao tal diretor do FBI para deixar a cair a investigação que tinha aberto pelas ligações entre um seu conselheiro e a Rússia, para, perante a nega, o demitir no dia anterior a receber na Casa Branca o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, a quem terá confidenciado informações confidenciais? De loucos, não? Ficção científica reles.

E se, num tom mais tropical, vos falar de um presidente que já foi vice e viu cair a sua antecessora por acusações de "delito fiscal" e complacência com um escândalo de corrupção, num processo capitaneado por um presidente do parlamento que acabaria por ser detido no âmbito desse mesmo processo. Pouco credível, não? E se lhe juntarmos que o mesmo presidente terá sido agora apanhado numa escuta a incentivar que se pague ao tal presidente do parlamento para garantir o seu silêncio na cadeia? Muito rebuscado...

As nossas democracias têm-se revelado terreno tão fértil para a ficção política, que anteontem, perante as notícias vindas do Brasil, no Twitter da série sobre política em Washington "House of Cards", apareceu a singela frase em português: "Tá difícil competir". Está mesmo, mas de uma forma dolorosa, porque os escândalos que envolvem Trump e Temer são reais e nos fazem crescer em cinismo e duvidar da democracia.

O contraponto é que mesmo que eles nos venham falar de campanha suja, de caça às bruxas, de "fake news", nós percebemos que há nas instituições quem continue a arriscar passar para a imprensa informações que, a prazo, nos permitirão fazer a limpeza democrática que se impõe, a quem não sabe privilegiar o interesse público em vez dos seus interesses pessoais ou políticos.

*SUBDIRETOR

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