Espreitar as estatísticas europeias é meio caminho andado para precisar de Prozac. Desde que entramos na CEE, a nossa maior façanha foi cometida na década cavaquista, quando passamos a Grécia e deixamos de ser o parente mais pobre do clube.
No entretanto, os gregos vingaram-se, e - não contentes de nos voltarem a passar à frente -, ainda fizeram a desfeita de nos roubar a vitória no Euro 2004 (coisa que nunca perdoarei a Scolari) e a União Europeia resolveu acatar o conselho bíblico - Crescei e multiplicai-vos - e já vai em 28 membros.
Ao longo do processo europeu de engorda, fomos sendo ultrapassados por alguns dos recém-chegados, como a República Checa, que, apesar de presidida por um gajo que rouba canetas (um tremendo sucesso no YouTube) e puxou em público as orelhas a Cavaco, passou como um foguete por nós no quadro da classificação geral ordenada de acordo com o PIB per capita.
O melhor é não ligar muito às estatísticas e buscar a consolação em rankings parcelares ou coisas afins, como os benfiquistas que, apesar de terem perdido tudo num mês, se regozijam porque tiveram o ataque mais realizador da Liga e estiveram a lutar por tudo até ao fim.
Ainda não há tanto tempo, podíamos babar-nos de orgulho patriótico por a nossa taxa de desemprego estar claramente abaixo da média comunitária. Nesses saudosos tempos, apresentei uma solução para a chaga do desemprego, com o objetivo de aumentar o índice de felicidade no nosso país, um indicador que valorizo mais que o PIB per capita.
Propus que quem tivesse emprego e não gostasse de trabalhar desse a vaga a desempregados que conseguem tirar prazer dessa atividade (o trabalho). Os preguiçosos ficavam ao alto, a viver à custa do subsídio. E os amantes do trabalho a fazer aquilo de que gostam. Todos felizes.
Agora, com um milhão de desempregados e um subsídio de desemprego que minguou em montante e duração, temo que a minha proposta não seja exequível. Já não deve haver empregos suficientes, ocupados por preguiçosos, para satisfazer as ambições dos desempregados irrequietos. Só para terem uma ideia, dos 403 mil funcionários públicos da folha salarial do Governo (ou seja, trabalhadores das EP e autarquias excluídos) apenas 63 mil fizeram greve no dia 27 de junho.
Este apego ao trabalho só pode ter a ver com o facto do número dos desempregados sem qualquer tipo de subsídio ter chegado aos 553 mil - mais do que os portugueses a sofrer de disfunção erétil.
Mas, repito, nestas coisas de estatísticas não podemos ser como aqueles tipos que olham para os dois lados antes de atravessarem uma rua de sentido único. Há que ser otimista. Tristezas não pagam dívidas. E o que importa é ser feliz. Se há meio milhão de portugueses com disfunção erétil, há seguramente uns bons três milhões com a função erétil cinco estrelas (ou quatro, o que já não é mau) que devem aproveitar isso e seguir o conselho divino: Crescei e multiplicai-vos.
