Parece que foi ontem e já passaram 30 anos. Mais ou menos os mesmos que já leva a nossa Constituição da República, aprovada pela Assembleia Constituinte que foi eleita depois do 25 de abril de 74. Estive em Lisboa, na Universidade Católica, num encontro comemorativo dos 30 anos da conclusão do curso de Direito, com todos os que foram capazes de o fazer nos seis anos que então tinha, entre 1977 e 1983.
Das 60 almas que cometeram essa proeza (cerca de metade dos que começaram) compareceram mais de 40, dos mais de 50 que ainda jantam todos os dias. Daqui a primeira feliz constatação: lamentamos muito todos os que partiram, mas na verdade não são muitos.
Alguns dos colegas que reencontrei neste jantar, já não lhes punha a vista em cima exatamente há 30 anos e como não sou de "facebooks", de muitos nem sequer sabia por onde andavam nem o que andaram a fazer.
Segunda constatação feliz foi saber que na sua esmagadora maioria estão todos bem na vida, o que também dirá muito sobre os critérios de seleção que na altura reduziram a 120 alunos os quase 800 candidatos e também dirá alguma coisa sobre a qualidade da formação recebida durante os seis anos de vida que nos custou este curso à moda antiga!
A terceira constatação é que já não é feliz, nem deixa de o ser, porque é a vida como ela é. Passaram 30 anos e os meus colegas já têm mais barriga, menos cabelo, mais olheiras e menos viço, mais vista cansada e menos resistência. Tendo regressado ao doce lar, quando eu ainda estava a meio das conversas que gostava de ter tido.
Por seu lado, apesar de se notar que o cuidado foi grande, a maioria das minhas colegas já tem mais saia e menos decote, mais madeixas e menos ousadias, mais conversa de filhos e menos sex appeal. Mesmo assim, devo dizer que também neste particular as mulheres do meu curso tiveram melhor nota que os homens, o que, diga-se em abono da verdade, já era assim há mais de 30 anos, exceção feita ao magnífico Fernando Ferreira Pinto, que acaba de assumir, et pour cause, as funções de diretor da Faculdade.
Um bocado mais velhinha do que o nosso badalado curso é a nossa sagrada Constituição da República Portuguesa. Já agora, referindo outro ponto de contacto, um dos nossos professores foi Jorge Miranda, pelo que posso dizer que estudei o texto fundamental do país quase ao "colo" do seu "pai" (por acaso também foi nosso professor Rui Machete, que já na altura mandava umas bolas fora...).
Acontece que para a Constituição o tempo também passa... e passaram aliás mais de 30 anos. Numa homenagem sincera às minhas colegas (às que foram, porque nestas coisas normalmente quem acha que está pior não aparece...) devo dizer que estão muito melhores do que a "filha" do prof. Jorge Miranda!
Ainda sabem muito bem o que dizem e devem dizer, enquanto a Constituição tem tiradas de fazer corar qualquer português que se preze. E diz coisas que hoje não lembram ao diabo!
Com especial destaque para as minhas colegas Maria José Galhardo, Ana Caetano e Ana Vallada, a maioria mantém uma silhueta invejável, que talvez já não resista a um desfile em biquíni, mas ainda impressiona num jantar, como foi o caso. Já a Constituição, ao fim de 30 anos, está obesa, disforme, a precisar de emagrecer na forma e no conteúdo!
Tirando aquela minoria de pessoas (e algumas vivem no Palácio Ratton!) que julga que casou com ela para toda a vida, no estado desleixado a que se deixou chegar já ninguém quer viver com esta Constituição!
Removê-la, mais do que uma questão de bom gosto, já é uma questão de saúde pública.
