Há fronteiras que matam. Desde 26 de junho, pelo menos 10 imigrantes morreram nas estradas em redor de Calais, no porto ou no interior do túnel, quando tentavam chegar ao Reino Unido. O problema não é novo. Em 1999 foi aberto o primeiro campo de refugiados, onde se estima que vivam atualmente três mil pessoas. Mas a dimensão do fenómeno atinge um nível preocupante, com o governo britânico a estimar em 37 mil as tentativas de entrada pelo Eurotúnel bloqueadas desde janeiro.
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A pressão sobre o Reino Unido, que ainda assim deve ser colocada em perspetiva quando comparada com as entradas pelo Mediterrâneo, mostra que as fronteiras, por mais arame farpado que tenham, são de papel quando o desespero comanda. O ser humano é inquieto. Movido pelo desejo de melhor. Foge da guerra, da fome ou da ditadura. Sempre o fez e continuará a fazê-lo.
Em Calais, como em Itália, Grécia ou Malta, há um problema humanitário e um político. Pode intervir-se no apoio a quem chega e reforçar o orçamento para assistência humanitária, mas o desafio político irá manter-se, ciclicamente. Se a Europa não permitir quotas justas de refugiados, eles virão de forma ilegal. Não adianta classificar os migrantes como "enxames", como fez o primeiro-ministro David Cameron, ou tentar afastá-los como uma praga.
O discurso político sobre as migrações é incoerente e varia ao sabor das marés. Durante anos ouvimos a Europa dizer que seria necessário regular a migração económica, condicionando as entradas à efetiva capacidade de resposta do mercado de trabalho, mas deixar sempre a porta aberta para os verdadeiros refugiados. Agora que eles chegam em bando, vindos do Sudão, Etiópia, Síria ou Eritreia, começam as adversativas.
Nas reportagens junto ao Eurotúnel, ouvimos os camionistas falar dos prejuízos que o fenómeno causa. Do tempo adicional devido ao reforço da fiscalização. Do medo de que os imigrantes subam aos camiões e originem multas pesadas. E ouvem-se frases sempre idênticas: "Sabemos que vêm à procura de uma vida melhor, mas...".
A Europa está encravada na política do "mas". Sabemos que os movimentos migratórios e as catástrofes humanitárias nos tocam a todos, mais cedo ou mais tarde, mas vamos empurrando os dramas para debaixo do tapete. Sabemos que os imigrantes e refugiados querem ir para o Reino Unido porque, como diz Cameron, "é um sítio incrível para se viver", mas um sítio reservado a alguns. Os outros, se não se importam, aguentem a inquietação - mas longe da nossa vista.
