Obama falhou. E o maior falhanço foi não ter, com a ação política, conseguido fazer perdurar no tempo a vontade de mudança espelhada na sua eleição, o primeiro presidente afro-americano da história dos Estados Unidos, o país da segregação racial, dos campos de algodão trabalhados a escravos, do Ku Klux Klan.
Falhou no combate ao aumento dos episódios de violência policial contra a minoria negra. Ao enfrentar os lóbis e a muralha republicana no controlo da venda de armas. Na luta contra as desigualdades sociais, cavadas ainda mais fundo durante os seus mandatos. Na Síria e no eterno conflito israelo-palestiniano. No regresso das pretensões russas aos antigos territórios da ex-União Soviética.
Os americanos não lhe perdoaram esses falhanços. Por muito que o desemprego seja agora residual. E os salários tenham aumentado em todas as classes. Que mais de 20 milhões de pessoas tenham acesso a um seguro de saúde digno. Que tenha estreitado as relações com Cuba. Ou assinado um tratado de não proliferação nuclear com o Irão. A eleição de Donald Trump é o maior símbolo desse falhanço.
Um presidente que proferiu, na tomada de posse, o discurso mais vazio da história da América, repetitivo, sem conteúdo político, nacionalista no que de pior tem o nacionalismo, de uma violência inédita contra o seu antecessor. Sem futuro. E sem democracia.
Dificilmente o exercício de poder terá mais densidade do que as suas palavras e isso diz muito do que espera os Estados Unidos e o Mundo, por muito que as práticas democráticas consolidadas do país façam com que Obama, também num momento inédito, se tenha sobreposto à cerimónia no Capitólio, sossegando os seus apoiantes. Esta é apenas uma pausa, não é sequer um ponto final, é uma vírgula, no trabalho notável que fizeram, disse.
Donald Trump contribuiu, paradoxalmente, para que Obama se despeça da Presidência como exemplo maior da política americana. A começar na família - nada, durante dois mandatos, nem um único escândalo, um telhado de vidro, um segredo obscuro, um reparo a fazer. E a acabar nele próprio, que sai com palavras fundas de apelo aos americanos para que não deem a democracia como um bem adquirido.
Voltou a fazê-lo ontem e a colocar-se no lugar de consciência da América. Mas os tempos que aí vêm não se pontuam com vírgulas ou pontos finais. São tempos de incerteza e de dúvidas.
Obama vai-nos fazer falta.
DIRETOR-EXECUTIVO
