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Dar estrelas aos enfermeiros

Dar estrelas aos enfermeiros

Declarações de interesses. Duas. Primeira. A área da saúde atravessa gerações na família. Tias, tios, primas e primos, amigos próximos e afastados. Muitos enfermeiros. Médicos também. Não há guerras familiares entre enfermeiros e médicos. Mas só porque é família. Os primeiros habituaram-se a serem mal pagos, a receberem ao longo da vida menos do que um médico a entrar na carreira. No público e no privado. E emigram. Os segundos habituaram-se ao estatuto social e económico.

Os enfermeiros atravessam a profissão a fazer o que ninguém faz. Na sala de operações. Nos tratamentos. Nas urgências. Ainda sobra tempo para limparem os doentes, e sabe Deus o que passam. São a primeira e última voz de conforto à travesseira da cama. Aturam todos e mais algum. Pau para toda a colher. E há enfermeiros bons e maus. Uns que se fartaram e desistiram. Outros para quem cuidar é uma missão. Gosto de pensar que os que conheço pertencem ao rol dos resilientes. Que a maioria é assim, mesmo nos momentos maus.

Segunda declaração. O JN é o jornal que mais se aproxima das angústias, anseios, problemas e causas das populações. É popular, sim, de referência. E orgulha-se há quase 130 anos da sua missão. Não digo isso por pertencer a este jornal. Digo-o porque é verdade. Lê-se na banca. Lê-se, ouve-se e vê-se no digital. Duas plataformas, conteúdos diferentes, o mesmo sentir do ofício.

Vêm estas declarações a propósito da ira nas redes sociais contra uma manchete do JN. Lia-se nas gordas: "Enfermeiros querem ganhar mais do que os médicos". Escreveu-se de tudo. A descarga de anos de frustrações e desconsiderações. A grande maioria não terá, sequer, lido a peça. Como sempre acontece nas reações em cadeia debitadas ao correr do impulso.

Uma semana depois, com o sangue a ferver menos, convém voltar a sintetizar. Os tais factos, que estavam na peça. E que não foram negados pelos sindicatos. Talvez desta vez se leiam esses factos, neste artigo que é de opinião. Entre outros, os enfermeiros querem uniformização do horário (há quem trabalhe 35 horas e outros 40, ganhando o mesmo); cinco categorias na carreira (só há duas), incluindo a de enfermeiro especialista; e salários que oscilam entre os 2025,35 euros (mais 823 do que hoje) e os 3364,14 (mais 463,42).

Os enfermeiros ganham mal. Muitos estão há 10 anos na primeira categoria a receber 1201,48 euros. Sejam especialistas ou não. Se a proposta em negociação com o Governo avançasse, passariam a ganhar mais 823 euros por mês, ou seja, 2025,35 euros. E é aqui que entra a comparação com os médicos. Um médico assistente em início de carreira que trabalhe 35 horas por semana ganha 1853,96 euros. Um que trabalhe 40 horas ganha 2746,24. Sejam muitos ou poucos nessa situação. Os enfermeiros reivindicam, de facto, um estatuto de respeito, económico e social, que traduza a dignidade profissional. E têm como referência os médicos. É normal. Ponto.

É simples, não é? Então porquê tanta irritação contra o mensageiro? Foi o mensageiro a apresentar a proposta que está na mesa das negociações? Não. Foi o mensageiro que comparou com o que ganham os médicos. Sim. E não é isso que faz a classe? Haviam de comparar-se com quem, se os próprios enfermeiros acham o abismo remuneratório injusto, quando sublinham que, mais coisa, menos coisa, 80% da massa salarial do SNS vai para os médicos?

O problema é que há um momento em que parece que o Mundo está contra nós. Não que esteja. A fúria e os anos acumulados de frustração é que nos cegam.

DIRETOR-EXECUTIVO

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