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Operação remédio santo

Operação remédio santo

Sabem o que é que verdadeiramente incomoda no cardápio que envolve a candidatura portuguesa à Agência Europeia do Medicamento? É ser tudo tão triste e enfadonhamente repetitivo. Comissões-mistério que fazem pareceres sem que nunca se saiba quem as compõe e onde estão os ditos. Partidos que se sobressaltam à última hora porque há eleições à porta. Governos empenhados, da posse à desposse, num país menos assimétrico com simétricos truques de ilusão.

Estamos sempre na mesma. E não, não é discurso de derrota. Por coisa de somenos. É o que é e sempre foi. Tratamos a candidatura à sede da Agência do Medicamento, a mais importante da Europa, como se fosse o Eurovisão da Canção. Culpas repartidas.

Dos deputados, da Esquerda à Direita, que assinam de cruz um voto de saudação à candidatura que mencionava Lisboa como cidade acolhedora. Não leram. Não fizeram o trabalho de casa. Acordaram tarde. Depois de Rui Moreira ter mostrado vontade em receber a Agência no Porto, também ele reagindo tarde. Se dormiram neste assunto, no que dormem mais?

Do primeiro-ministro, embrulhado em contradições, dele, e de membros do seu Governo sobre as declarações dele. Dele, que disse ter lutado até ao fim pelo Porto, mas ninguém deu por nada. Que só Lisboa cumpria critérios, que afinal ainda não foram divulgados. Já para não falar da invocada necessidade de ter uma escola de elite. Desculpem?! Do seu ministro da Saúde contra as declarações dele, porque afinal "o Porto tem tantas condições como tem Lisboa para apresentar uma candidatura forte".

Dos autarcas. De Braga, Coimbra, Aveiro, cidades com competências e capacidades, incapazes de se unirem num coro de protesto, salvo raras e honrosas exceções.

Do presidente da República, sempre tão firme e interventivo e que se distraiu, até dizer o óbvio: Agora é tarde. E convém que os partidos "definam uma posição, se é que a tinham".

Sim. Agora é tarde, mas serve para tranquilizarmos a consciência e fazer de conta que fizemos. Porque o epílogo da candidatura da Agência do Medicamento não se cinge a uma guerra Porto--Lisboa. Ou Braga-Porto. Ou Coimbra-Aveiro. Todas temendo que outras assumam um centralismo pior do que o da capital.

O epílogo, ou a moral da história, está na total ausência de descentralização do país. Nos avanços e recuos da tentativa de leis vãs. Na falta de empenho em diminuir as diferenças regionais. No êxodo de um país impotente em direção à sua costa e da sua costa para sul.

É o país todo sempre a perder. Tudo tão triste e enfadonhamente repetitivo.

DIRETOR-EXECUTIVO

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