Opinião

Depois de Manchester

Em cada atentado, lá estamos nós divididos entre o medo e a raiva, pensando em silêncio nos riscos que comportam as sociedades demasiado abertas. É para isso que nos quer encaminhar o terrorismo do Estado Islâmico. E a cada vez que tal barbárie ocorre, lá concluímos que, agora sim, foram longe demais. Aconteceu isso em Manchester, num ataque que visou, acima de tudo, crianças e jovens. E que atingiu também os políticos.

Tendo em conta os recentes atentados do Estado Islâmico, parece haver uma evolução nas opções que vão sendo tomadas. Desta vez, o alvo foram claramente os mais novos. E o choque avolumou-se. É isso que pretendem os autores destes atos bárbaros. Desta vez, a circunstância reunia ainda o facto de haver ali, na Arena de Manchester, uma protagonista americana, a cantora Ariana Grande, que certamente arrastaria a noticiabilidade para os Estados Unidos.

A atenção mediática foi intensa e contou com a colaboração de fontes americanas que viriam a revelar aos jornalistas, para além de pormenores sobre o que se passou, o nome do autor do atentado. O jornal "New York Times" foi um dos meios mais proativos a relatarem o facto com minúcia, publicando mesmo imagens recolhidas no recinto onde tudo aconteceu. Ontem, a Polícia britânica fez saber, através da BBC, que está furiosa com os EUA, a ministra britânica do Interior também considerou tudo isso "irritante" e o diário "The Guardian" anunciou que Theresa May deveria confrontar Donald Trump com estas inconfidências. Não foi necessária muita discussão, porque o presidente americano declarou que considerava essa divulgação muito preocupante. E prometeu apurar o que se passou.

Ainda no plano político, levanta-se uma outra discussão no Reino Unido. O que poderá dizer Theresa May e os seus ministros sobre este atentado e que medidas devem anunciar, se o contexto do país é de pré-campanha eleitoral? Vestida de preto e de rosto fechado, a primeira-ministra britânica reagiu rapidamente a este atentado e anunciou que o país passaria de estado de alerta severo para crítico. Há quem veja nesta decisão a líder do Partido Conservador que procura chegar, assim, ao coração dos eleitores. Na verdade, é impossível dissociar as duas figuras, sobretudo num contexto que exige um permanente e dedicado envolvimento do Governo. Na verdade, este ataque vai definir as eleições, tornando-se o terrorismo um dos vetores estruturantes desta campanha. E isso pode ser extremamente perigoso.

A revista "New Statesman" publicava, ontem, um texto que refletia acerca deste difícil equilíbrio entre segurança e liberdade. Escrevia-se que poderíamos fazer mais na luta contra o terrorismo se estivéssemos dispostos a viver num estado policial. Foram mortas crianças e a tentação seria perguntar de que serve a tolerância ou a defesa dos direitos humanos. Testemunhámos um ataque sobre pessoas indefesas e é certamente difícil exigir-nos um pensamento racional. Todavia, é preciso fazer um esforço para ganhar distância a fim de evitar que certos estados emocionais ditem políticas públicas repressivas. Convém nunca perder de vista que os autores destes atos são frequentemente pessoas que nasceram no país que atacam. Algumas são recordadas num quotidiano algo normal. Claro que podemos contrapor que se somam demasiados casos de terroristas já referenciados pelas autoridades policiais e outros operando em redes que convinha seguir com mais atenção. São lobos conhecidos que atuam na visão periférica dos serviços de segurança. Ora, é precisamente aí que se deverá reforçar a atuação de quem investiga, embora seja muito improvável um controlo absoluto.

Vivemos hoje em sociedades de risco descontrolado, divididos entre a enorme atração por uma globalização promissora de progresso e o colossal medo em relação ao desconhecido que pensa de forma radicalmente diferente da nossa. Esperemos que as opções políticas não nos encaminhem para contextos de crescente isolamento. Porque os problemas não estão aqui. Estão ali, a céu aberto, onde os terroristas erguem frentes de combate. À vista de todos. E que poderiam ser neutralizadas, se essa fosse realmente uma prioridade política à escala global.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO

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