Opinião

Lei da rolha? Porquê?

Lei da rolha? Porquê?

A cada vaga de incêndios, o problema da comunicação não tarda a emergir. Ora são as fontes de informação a criar sucessivas entropias, ora são os jornalistas a redimensionar o que acontece. Desta vez, o problema será o contacto dos bombeiros com os média noticiosos. Por isso, a Autoridade Nacional de Proteção Civil concentrou em si toda a comunicação com as redações, promovendo, a partir de Carnaxide, dois briefings diários para falar dos incêndios. Esta decisão não deveria ser tomada em pleno verão quente, com a floresta a arder.

Sabemos que há bombeiros demasiado preocupados em falar com os jornalistas, muitas vezes à procura de notoriedade pública. Não deveria ser assim. Porque o que deles se espera é um combate eficaz dos fogos e não uma preocupação excessiva com os média. Todavia, informar não é aqui uma tarefa menor. Quanto mais grave for a situação, mais necessitamos de informação atualizada, verdadeira, pertinente. Que nos diga com rigor o que está a ocorrer e ajude as pessoas das regiões afetadas a melhor se defenderem. Ora, ao dar conta daquilo que se passa, os comandantes das corporações destapam insuficiências da ação pública, realçam descoordenações das entidades oficiais, salientam o desalento de populações desesperadas... E isso desgasta o poder político dominante. Todavia, a solução não será esconder subitamente os mensageiros, mas deles exigir o relato da verdade e uma intervenção orientadora para quem se confronta com os fogos. Seguindo as declarações dos bombeiros com atenção, nota-se que não há ali uma estratégia de comunicação previamente planeada. E isso também está errado, porque o que se diz tem um enorme impacto público.

Não é tarefa fácil pensar a comunicação em contexto de incêndios. Em casos de maior gravidade, os canais televisivos de informação e de rádio criam uma espécie de antena aberta sintonizada com o lugar do acontecimento que precisa de ser alimentada com dados novos. Por isso, os repórteres estão continuamente a solicitar entrevistas aos bombeiros e alguns lá entram num permanente e perigoso carrossel de declarações aos jornalistas, gastando aí um tempo que terá de ser subtraído ao comando das operações. Não é, pois, difícil concluir que existe aqui um problema de comunicação. Que, no entanto, não pode ser resolvido no verão, pior, em plena época de incêndios. As autoridades oficiais devem formar os bombeiros para comunicar de forma equilibrada. Pelo caos que testemunhamos todos os anos na relação destas fontes com os jornalistas, pouco se fará a esse nível.

Todavia, não terá sido, decerto, a pensar na deriva informativa que se vê no teatro das operações que a Proteção Civil decidiu centralizar na sua sede em Carnaxide todas as informações. A ideia de colocar no espaço público mediático uma voz oficial que se pronuncia duas vezes por dia sobre os incêndios do país é uma estratégia muito conhecida na gestão de situações de crise. Que não deveria ser tomada neste contexto. Por várias razões. Porque pôs os jornalistas a anunciar esta medida como "a lei da rolha", fixando-se a ideia de uma censura aos bombeiros; porque nenhuma estrutura sediada na zona de Lisboa é capaz de falar com exatidão do que está a ocorrer em pontos distantes do país, quando o assunto são os incêndios; porque os jornalistas não privilegiam o chamado "Portugal sentado" que fala do país que sofre a partir de gabinetes; e porque é vã qualquer tentativa de desviar os média do palco dos acontecimentos que se noticiam. Nos incêndios, os repórteres precisam de imagens, de declarações feitas no terreno, do sentir das pessoas afetadas...

A partir de agora, os bombeiros não irão ser muito visíveis nos média, mas lá continuarão a falar com os jornalistas. Em "off". E isso terá efeitos negativos. Porque em declarações não identificadas, as fontes sentem-se livres para dizer o que querem sem serem depois responsabilizadas por isso. E à falta de bombeiros para ilustrar peças, os jornalistas irão certamente socorrer-se mais das populações em desespero. É, pois, urgente as fontes oficiais envolvidas no combate aos incêndios pensarem com calma as suas políticas de comunicação para não provocarem perigosos reacendimentos.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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