Francisco Seixas da Costa

Informações

Os serviços de informações são indispensáveis para a defesa dos interesses dos países, na ordem interna e externa. Nenhum Estado passa sem eles, porque as ameaças à sua segurança são permanentes e há que habilitar quem tem responsabilidades políticas com dados que permitam tomar decisões para a proteção desses interesses. Pela sua natureza, os serviços - que não são polícias - têm de ser discretos no seu trabalho de pesquisa, o que induz frequentemente suspeições e alimenta teorias conspirativas. E têm de ser independentes, desde logo dos meios económicos e, tanto quanto a razoabilidade e as leis da vida o permitem, dos meios políticos, para que a ciclicidade democrática não comprometa a sua funcionalidade.

Francisco Seixas da Costa

Grau zero

"Osenhor não tem o monopólio do coração", lançou Giscard d"Estaing a François Mitterrand, com maestria, no debate presidencial de 1974. Qualificado de "candidato do passado", Mitterrand retorquiria a Giscard, em 1981, que ele era "o candidato do passivo". Mais um septenato decorrido, o mesmo Mitterrand, presidente recandidato, calaria o seu "challenger", o primeiro-ministro da maioria hostil, Jacques Chirac, quando este sublinhou que ali não estavam um presidente e um primeiro-ministro, mas apenas duas pessoas com estatuto idêntico, com o soberbo: "Tem toda a razão, senhor primeiro-ministro". Chirac começaria a cair aqui.

Francisco Seixas da Costa

Em perspetiva

O Mundo entretém-se, por estes dias, a listar as reversões com que Trump confirma a natureza errática da sua política externa, agora entregue, ao que tudo indica, aos militares e àqueles que fabricam aquilo com que estes exercem a sua atividade. Há, porém, uma "promessa" que Trump parece determinado a cumprir, em absoluto: pôr de lado qualquer consideração pelas instituições multilaterais, como a ONU, e assumir em pleno que a força é o fator da sua legitimidade, como decorre da arrogância jingoísta com que brinca com o fogo da segurança de todos nós.

Francisco Seixas da Costa

Trump e a guerra

Muitos nos enganámos no resultado das eleições presidenciais americanas. Mas poucos nos equivocámos quando previmos aquilo que o início do mandato de Donald Trump poderia vir a ser. A agenda externa de Trump foi, desde o primeiro momento, observada com uma curiosidade preocupada por muitos amigos tradicionais dos Estados Unidos. Os sinais de estranha simpatia para com Putin, a agressividade desproporcionada perante o México, a sobranceria algo agressiva face à União Europeia, algum desdém face à NATO, um discurso com uma ligeireza irresponsável sobre a proliferação nuclear, um total desprezo pelas Nações Unidas e sinais de hostilidade aberta para com a China mostravam uma política externa com a abertura de várias "frentes" de contraste. Os EUA de Trump assumiam uma linha de revisão, não apenas da linha da administração democrática anterior, mas igualmente da América que, desde há quase sete décadas, fora o campeão de uma nova ordem multilateral e da arquitetura institucional e segurança a que aculturara o Mundo que se revia na sua liderança.

Francisco Seixas da Costa

O novo mapa da França

A história da V República francesa, regime que no final dos anos 50 pôs fim a um modelo parlamentar atribulado e visivelmente ineficaz, tornou muito evidente que o sistema partidário se transformou, naquele país, numa dimensão puramente subsidiária na afirmação da vontade política. Quero com isto dizer que, à esquerda e à direita, a dinâmica de agregação de forças se revela dependente de lógicas conjunturais e, frequentemente, do apoio a alguns atores políticos. A meu ver, os dias que aí vêm vão confirmar isto de modo claro.

Francisco Seixas da Costa

As sombras sobre a festa

Passam amanhã 60 anos sobre a data em que um grupo de seis democracias europeias decidiu instituir entre si aquele que é, sem a menor sombra de dúvida, o mais bem-sucedido processo de cooperação internacional que a História regista. Aquilo a que hoje chamamos União Europeia resultou do aprofundamento dessa ideia, nascida para curar as feridas da guerra e para dar solidez a um espaço onde a economia de mercado se contrapunha ao modelo das "democracias populares". Com os Estados Unidos, a Europa viria também a partilhar a vitória na Guerra Fria, simbolizada pela implosão da União Soviética e pela recuperação da soberania plena por parte dos países que, no Centro e Leste do continente, deixaram então de respeitar a tutela de Moscovo.