Opinião

A cobardia democrática

A cobardia democrática

O resultado das eleições legislativas na Holanda foi visto com alívio por quantos vivem preocupados com o ascenso de uma agenda extremista em alguns países. Somos quase os mesmos que, há meses, nos congratulámos com o facto de, nas eleições presidenciais austríacas, o candidato ligado à extrema-direita ter sido derrotado. Agora, nesta corrida de obstáculos contra o radicalismo, vamos "fazer figas" contra Marine Le Pen e, depois, estaremos muito atentos às eleições na Alemanha e na Itália.

Há, contudo, qualquer coisa de ingénuo nesta atitude. O Brexit e Trump fizeram soar alguns alarmes, por terem reforçado a ideia de que há consideráveis setores, em algumas opiniões públicas, sensíveis a alguns estímulos primários, às vezes assentes em inverdades, que levam a derivas extremadas do eleitorado.

Mas que resultado prático tem este nosso alarmismo, perante uma realidade que inexoravelmente vai avançando? É verdade que os extremistas da Áustria e da Holanda foram travados, da mesma forma que parece evidente que Le Pen não vai conseguir entrar no Eliseu e que a extrema-direita alemã dificilmente terá uma expressão significativa no Bundestag. Mas até quando?

Há algo de que poucos falam e que, a meu ver, tem uma imensa gravidade: é que algumas das forças que se vão mantendo no poder, numa conjuntural e saudada não-vitória do extremismo, fizeram entretanto uma "evolução" ideológica, com vista a capturar eleitorado potencial à extrema-direita, que se traduziu na mimetização, quiçá em termos apenas mais democráticos e aceitáveis, de aspetos da agenda extremista. Olhe-se, em França, para o discurso do partido de Sarkozy ou para algumas posições da CSU, a ala bávara da CDU alemã de Angela Merkel, para se perceber que, aparentemente sob o mesmo rótulo partidário, estamos já a falar de formações ideologicamente mutantes, ainda que de forma subliminar.

O que fazer? Desde logo, assumir abertamente que o eleitor não tem sempre razão. O revoltado preconceituoso, que assume atitudes racistas, xenófobas ou religiosamente discriminatórias, bem como discursos de extremado nacionalismo e de intolerância cultural, deve ser ouvido, mas não tem razão e não deve ser "servido" por políticas que confortem essas repugnantes ideias. Se não assumirmos isto, estaremos a dizer adeus à ética da democracia. Os líderes políticos não existem para serem apenas meras correias de transmissão dos sentimentos do eleitorado, sejam eles quais forem. Só os populistas atuam assim. Quem se preocupa com o bem-estar das sociedades e com a paz social tem a obrigação de tentar reconduzir essa revolta, através de pedagogia cívica, para a adoção de políticas de razoabilidade e de bom senso. Tentar compreender as razões que levam ao extremismo não é a mesma coisa do que ser seguidista em relação a ele. A isso chama-se cobardia democrática.

Para a semana, falaremos mais sobre isto.

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