No país de Chico e Caetano, de Gilberto e Bethânia, do samba e do axé, num país que tem uma relação fortíssima com a música, a melhor metáfora para o desalento que atingiu uma boa parte da população escreve-se em poucas palavras. "O Brasil virou um país sem melodia", ouvi a um amigo brasileiro, dois dias depois da maratona que ditou o arquivamento do inquérito por corrupção contra o presidente da República.
Mergulhado num clima instável e em convulsões sociais, o Brasil deu a Michel Temer uma nova oportunidade justificada exclusivamente por jogos de bastidores e razões económicas. Vários deputados que lhe deram a mão invocaram a necessidade de manter o ritmo de reequilíbrio financeiro e de reformas estruturais. Como analisa o cientista político Ricardo Wahrendorff Caldas, professor da Universidade de Brasília, o governo Temer é como a série "Walking Dead": quando se pensa que está a morrer, ressurge e ganha uma nova vida para continuar.
A dúvida é se Temer terá capacidade para resistir mais de um ano, até final do mandato. E se estará politicamente legitimado para prosseguir reformas relevantes. A somar aos protestos nas ruas, enfrenta divisões no partido e exigências de contrapartidas do "centrão" que votou ao seu lado. Os níveis de popularidade não vão além de escassos 5%. Se a tudo isso se somar a insegurança assustadora nos meios urbanos e as gritantes desigualdades sociais, percebe-se o desencanto.
Vários gigantes da América Latina vivem dias de turbulência. E o caminho é sempre perigoso quando se dão desculpas para fechar os olhos ao que deveria ser inaceitável. Michel Temer venceu em nome da economia, como se esse imperativo superasse a justiça e a luta contra a corrupção. Nicolás Maduro mantém apoios internacionais, incluindo em Portugal, com o argumento de que eventuais sobressaltos e uso da força servem propósitos maiores de concretização do modelo socialista.
Há princípios de que não se pode abdicar nem em nome da economia nem da ideologia. Na Venezuela, nenhum fim justifica os meios antidemocráticos. No Brasil, nenhum resultado macroeconómico permite fechar os olhos a indícios fortes de corrupção. O respeito pelas regras democráticas e pela ética deve ser inegociável. E à classe política exige-se muito mais do que a um empresário ou a um cidadão comum. Pela simples razão de que gere património público, o que faz toda a diferença.
*SUBDIRETORA
