"Meu caro Pinóquio. Escrevo-te hoje, dia das mentiras (os ingleses chamam "Dia dos Tolos") para te dizer que deixaste uma prole dispensável. Não vê o nariz crescer quando mente, nem tem entalhadores como pais, mas consegue mentir tão bem como tu quando eras ainda de pau. Na tua descendência há pessoas com responsabilidades públicas (mas também gente comum) que, quando confrontadas com factos, sofrem de falta de memória ou, então, juram, "ceguinhos sejam", que "não sabem" do que se fala. Basta ouvir inquiridos em comissões parlamentares para perceber que é grande a família de pinóquios. Tu, filho de Geppeto, tinhas como inimigos um gato e uma raposa, que te desviavam dos bons conselhos do Grilo Falante e da fada azul. Os teus sucessores não te desiludiram. Fazem o jogo do gato e do rato (veja-se a Assembleia da República e as campanhas eleitorais) e metem sempre raposas dentro de galinheiros (sobram exemplos no passado de bancos e de instituições europeias). Mas nunca mentem. Quanto muito, dizem "inverdades". E argumentam com a "pós-verdade". Para mim, Pinóquio, e peço desculpa, serão sempre aldrabões. Engravatados, mas aldrabões".
* JORNALISTA
