Opinião

Terapia de choque

A Turquia não será a mesma depois deste referendo. Quem o disse foi Erdogan, que agora verá os seus poderes reforçados. Com uma margem mínima, e sob a sombra de várias irregularidades, o presidente ganha agora poder sobre o Exército e os tribunais e reduz o Parlamento a um acessório. Tudo em nome da estabilidade e do combate ao terrorismo. Argumentos também utilizados para justificar a vaga de prisões e perseguições depois da tentativa de golpe militar em 2016.

Há quem se apresse a ver nestes desenvolvimentos o fim das relações institucionais entre a União Europeia e a Turquia. Veremos se assim acontecerá. Até agora, a UE tem dado provas de estar dotada da hipocrisia necessária para fechar os olhos a todos os atentados aos direitos humanos, da Hungria à Turquia. Exemplo disso é o facto de continuar a pagar 6000 milhões de euros a Erdogan para que este mantenha, lá bem longe, autênticos campos de concentração para refugiados sírios.

Quando fez o negócio, a UE já tinha conhecimento das inclinações autoritárias do regime turco, da mesma forma que sabia que o país não subscreve os mais básicos dos acordos internacionais de defesa dos direitos humanos. Mais que isso, toda a comunidade internacional estava, e está, perfeitamente consciente da forma como Erdogan persegue e ataca os curdos no seu país. Curdos esses que, quer na parte turca como na síria, são a mais importante força de combate ao Daesh. O suposto empenho de Erdogan contra o terrorismo não o impediu de cortar os corredores de ajuda humanitária para as zonas de fronteira do Curdistão Turco, nem de bombardear as suas populações, também bombardeadas pelo Daesh.

O Estado de exceção que Erdogan reclama para combater o terror é, em si, o terror. E não está sozinho. É mais um degrau na escalada da guerra. Uma terapia de choque que tudo permite e tudo banaliza, do permanente estado de emergência em França à "mãe de todas as bombas" que Trump largou no Afeganistão.

* DEPUTADA DO BE

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