Opinião

Ir ou não ir a Paris

Ir ou não ir a Paris

O caso das demissões dos secretários de Estado que foram ver jogos da seleção a convite da Galp teria tudo para ser uma típica história de "silly season". O problema é que decorre de um fanatismo moralista instalado, que enfraquece e degrada a vida pública. Vamos todos pagar por isto.

Precisamente no verão passado, três membros do Governo PS viajaram até França para assistir a jogos de Portugal. Fizeram-no a convite e a expensas da Galp, empresa que há anos patrocina a seleção. O facto foi público, a polémica mereceu grande debate e a Procuradoria-Geral da República abriu um inquérito.

Foram precisos 12 meses (!) até que os secretários de Estado fossem constituídos arguidos pela suposta prática do crime de "recebimento indevido de vantagem". Ou seja, um ano de investigação para confirmar o óbvio: que os governantes viajaram a convite da Galp, algo que todas as partes desde logo assumiram como verdadeiro. Não nos deve admirar que crimes realmente graves e inquéritos reconhecidamente complexos demorem décadas a ficarem concluídos, acabando muitas vezes por prescrever.

Mas o grave e preocupante são sobretudo as circunstâncias em que vemos um Governo perder três dos seus mais competentes membros. A não ser que algum deles tenha prestado tratamento de favor à Galp - o que não terá sido o caso, até porque aí o crime em causa seria outro, bem mais grave -, toda esta história é reveladora de uma mesquinhez deplorável e de um moralismo muitíssimo perigoso. Lei é lei. É para cumprir. E foram aliás os políticos que temos que aprovaram a criminalização do dito "recebimento indevido de vantagem".

Ora, o caminho entre a inveja fácil e populista que afasta secretários de Estado e a generalização de uma classe política composta por incapazes, infelizes e eremitas é assustadoramente curto. Não só já temos políticos mal pagos (face às suas responsabilidades), como em breve teremos políticos sem vida própria, sem cultura e sem mundo. Quando um país faz ascender à sua elite governativa gente que tem para apresentar como currículo apenas e só uma carreira partidária é impossível que as coisas corram bem.

Pior: enquanto se discutem "Galpgates" e outros casos, não se discutem as funções do Estado nem o seu modelo de organização. Não se debatem os problemas estruturais e profundos do país, seja na segurança social, na agricultura, na banca ou na produção industrial. Preferimos continuar entretidos com bilhetes para o futebol e viagens a Paris. E, sim, confirma-se. Estamos no verão.

* EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PORTO

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