Foi outra vez S. João, S. Pedro, Santo António. A festa saiu à rua em todo o seu esplendor, espontânea, verdadeira. Um povo a partilhar alegria é algo muito bonito, fura todos os tratados. O Ecofin a decorrer, com os ministros das Finanças da União Europeia, sérios e burocratas como é hábito, a decidir como nos castigam, pelos excessos cometidos e pela falta de rigor na gestão das contas públicas, e nós a dar-lhes razão: gostamos de festa.
Segunda-feira, dia de trabalho. Lisboa quase inteira na rua, dança, festeja e o resto do país, de regresso ao trabalho, deixa para trás a habitual réstia de desconfiança para com a capital. Gostaríamos, isso sim, que a festa se replicasse, se fosse possível, por "esse imenso Portugal".
Um momento único. Portugal conseguiu aquilo em que poucos acreditavam. Talvez apenas os mais jovens, com a candura da inocência, ousavam sonhar sem entraves com tal desfecho. E agora? O que muda afinal nas nossas vidas, para além dos momentos de felicidade, divididos por uma nação carente de alegrias?
A festa partilhada e, todos juntos, acreditarmos ser possível. E foi possível. Não é mais que isso, e é já muito. Mas não será caso para irmos, em vibrante romagem, a Fátima. Devemos agradecer ao 11 que batalhou no relvado, orientado por um homem crente. Esse, sim: irá, por certo, ao Santuário de Fátima. Tem fé e merece o nosso respeito. Marcelo Rebelo de Sousa também pode ir, claro que sim. Já o presidente da República deveria ser mais discreto nas coisas da fé. "Rezámos muito terços. Ele e eu [Fernando Santos]. Muitos. Ainda vou a Fátima, por conta disso", admitiu. Marcelo presidente ou Marcelo cidadão, professor de Direito? Numa cerimónia pública no Palácio de Belém, presumo seja Marcelo presidente a falar aos portugueses. Presumo apenas, porque nem o próprio separa os papéis com clareza - e essa começa a ser uma das suas fragilidades.
Os problemas persistem. O país continua endividado, com o Governo socialista a tentar tudo por tudo para manter as promessas eleitorais e a suster o acordo de apoio parlamentar com os partidos à sua esquerda. De Bruxelas, chegou (mais) um recado: seremos perdoados pela nossa má conduta, desde que daqui para a frente voltemos ao "caminho certo". Esperemos que os 28, reunidos em Bruxelas, não tenham acesso às imagens das televisões nacionais a mostrarem, há longas horas, um país em festa, completamente alheado dos problemas orçamentais.
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