Enquanto a encenação europeia em torno das sanções a aplicar a Portugal e Espanha se eternizava em longos atos de mau teatro, ora cómico, ora trágico, o cemitério a céu aberto em que se transformou a costa mediterrânica do Velho Continente continuava a acumular cadáveres. Desde o início do ano, mais de 3100 migrantes sucumbiram na viagem a caminho de Itália, Grécia ou Espanha.
Para se perceber a dimensão negra da estatística, basta ver que em todo o Mundo, de acordo com a Organização Internacional para a Migração, o número de migrantes mortos ultrapassou os quatro mil. Mais 26% do que em igual período do ano passado. Quer isto dizer que a Europa se mantém como destino preferencial de milhares de almas desesperadas, para quem a mais ténue perspetiva de um futuro longe da guerra, da pobreza e de regimes políticos pouco consentâneos com os princípios democráticos consegue ser, ainda assim, mais atrativa do que o risco iminente de morrerem por afogamento no alto-mar a bordo de uma embarcação de borracha.
A Europa tem sido dissonante na resposta a esta calamidade. Mas entre os vários dirigentes que continuam a varrer o problema (chamar-lhe assim é sempre em tom diminutivo) para debaixo do tapete ou a fechar-lhe pura e simplesmente a porta na cara, há um, no caso uma, que tem revelado uma coragem e coerência assinaláveis: Angela Merkel. A chanceler alemã não capitulou perante a mais recente vaga de atentados terroristas que assolou o mais poderoso e populoso país da União Europeia. E podia tê-lo feito, pressionada pelos parceiros internos e pressionada, sobretudo, pelo medo generalizado de que quanto maior for a bondade no acolhimento de muçulmanos, maior é o perigo de se estar a dar asilo a terroristas. "Continuo convencida de que conseguiremos - é o nosso dever e este é um desafio histórico em tempos de globalização", afirmou a líder germânica.
Não são palavras vãs estas. No ano passado, a Alemanha acolheu mais de um milhão de refugiados. Neste, já franqueou a entrada a mais de 222 mil requerentes de asilo. Poucos arriscariam dizer que, no imenso deserto de valores por onde deambula a Europa, Angela Merkel despontaria como uma das mais esclarecidas e destemidas consciências. Que a Alemanha, tantas vezes crucificada por valorizar mais a sua dimensão imperial do que o projeto comunitário, desse uma lição de humildade e humanidade a tantos países ditos desenvolvidos. No fundo, como explicou Merkel, que "soçobrasse" perante essa ideia tão romântica quão por vezes inalcançável de "ajudar pessoas que necessitam".
* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO
