A abrir

Caixa sem surpresas

Do manancial de perguntas que estão por responder sobre o passado, presente e futuro da Caixa Geral de Depósitos, há uma que assume particular relevância: queremos salvar um banco público para este se comportar como um banco privado? A julgar pela estratégia anunciada por Paulo Macedo, a resposta já está dada. "Ninguém peça à Caixa para ficar em todas as zonas em que nenhum banco quer ficar. Porque um dos pressupostos desta recapitalização é a rentabilidade".

No fundo, o que o ex-ministro da Saúde nos explicou, com a clareza que lhe é característica, é que não pode garantir, com o mesmo dinheiro do Orçamento do Estado, que a Caixa cumpra a sua função social de sempre e, ao mesmo tempo, descole do território pantanoso para onde foi arrastada por prejuízos históricos de quase 1900 milhões de euros.

É um equilíbrio quase impossível este, apesar das reivindicações dos partidos à Esquerda e à Direita do PS, que não querem ouvir falar no encerramento de balcões nem no despedimento de mais de dois mil trabalhadores. O BE rejeita mesmo a ideia de que o fecho de dependências em zonas do interior que o Estado já abandonou em tantos outros domínios seja uma espécie de contrapartida pela recapitalização da Caixa. Mas a verdade é que, na vida como no mundo dos negócios, ninguém consegue fazer sangue sem armas pontiagudas. E o cutelo, para não variar, vai rasgar as partes do cordeiro que têm mais carne: os recursos humanos e o edificado.

O maior banco do sistema estima chegar a 2020 com 470 a 490 balcões, face aos 651 que detinha no final do ano passado, o que equivale a reduzir 25% da oferta. Apesar da bonomia de Paulo Macedo, que prometeu mitigar os efeitos desta profunda reestruturação no fecho das dependências, não é de esperar que a Caixa regresse à sua vocação pública, de estar em todo o lado, de ajudar as empresas em dificuldades, de continuar a poupar nas comissões aos clientes. O paradigma alterou-se porque as circunstâncias se alteraram.

Volto à pergunta inicial: queremos mesmo salvar um banco público para este se comportar como um banco privado? Honestamente, não vejo outra solução. A Caixa, que detém o maior número de clientes e movimenta o maior volume de depósitos e de créditos, está obrigada a entrar na guerra do mercado. Isto se quiser sobreviver. E é bom que o faça. Porque já estamos cansados de ver ser posta à prova a elasticidade dos nossos impostos.

EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

Recomendadas

Outros conteúdos GM

Conteúdo Patrocinado