Opinião

Cocktail moloTrump

Já passou um mês? Ainda só passou um mês? Como na ladainha do copo meio cheio ou meio vazio, também os julgamentos se extremam quando toca a sumariar os primeiros 30 dias do mais impreparado e impopular presidente dos Estados Unidos da América da história. Já estamos cansados de Donald Trump, mas parece que não conseguimos cansar-nos dele. Em matéria de ação política, as teorias mais catastrofistas estão por provar, mas as mais contemporizadoras foram pulverizadas. Não há meio-termo possível, quando testamos os níveis de adrenalina nesta montanha-russa de contradições (é favor ler a referência geopolítica de forma literal).

Trump tem-se esforçado por ser original, no que isso encerra de incendiário e caótico, mas o que avulta de mais chocante neste magro período pós-investidura é a ignorância estrutural do homem. O que não seria um defeito lesa-planeta, se essa míngua de clarividência e "gravitas" governativa fosse um incentivo à aprendizagem. Sucede, porém, que tão árido deserto intelectual potencia obscenidades várias e releva o ascendente dos que o rodeiam, cuja natureza crua e preconceituosa tende a sair glorificada. Particularmente porque esses emissários mediáticos germinam num lodaçal não raramente confundido com agenda ideológica - e digo confundido, porque esta ideologia não é a que se exerce no sentido benigno das ideias, mas no sentido necrófago da seita. Começa no racismo e acaba na pedofilia.

Tente recordar-se da decisão ou proposta da Administração Trump que mais o chocou. E agora faça o mesmo com a decisão ou proposta que mais o divertiu. A tentação é a de confundirmos os planos, porque Trump usa a mesma maquilhagem de um reality-show. Antes como agora, sacia-se com as audiências. Que o digam os canais de notícias e os mais prestigiados jornais norte-americanos, que acumulam subscrições. Só o "The New York Times" granjeou quase 300 mil novos clientes pagantes desde a eleição. No afã do "make America great again", Trump está a conseguir engrandecer os grupos de comunicação. E isto não são "fake news".

Da forma atabalhoada como impôs uma "fatwa" aos imigrantes oriundos de certos países árabes, à diabolização do aquecimento global, passando pelas declarações de guerra aos média e aos serviços secretos, pelas crises diplomáticas com nações amigas e terminando na censura a uma multinacional que deixou de vender as roupas da filha Ivanka ou na referência ficcionada a um ataque terrorista na Suécia, falamos sempre da mesma pegada disfuncional. São demasiadas feridas autoinfligidas para sequer lhe chamarmos um projeto de poder.

Mas um mês é pouco tempo. Duas certezas temos, porém: o Mundo não estava preparado para Donald Trump, mas Donald Trump também não estava preparado para o Mundo.

*EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

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