Opinião

Culpados dum raio

A culpa é do calor. E da baixa humidade. A culpa é dos ventos cruzados. E das descargas elétricas. A culpa é da trovoada seca. A culpa é desta conjugação improvável de fenómenos. A culpa é dos senhores da meteorologia. E do povo que não ouviu a trovoada. A culpa é do raio que dizimou uma árvore. E da árvore que deu origem a tudo. A culpa é da vegetação seca. A culpa é de quem não limpou a vegetação seca. A culpa é de quem não multou os que não limparam a vegetação seca. A culpa é da GNR. A culpa é dos juízes que não aplicam a lei com mão severa. A culpa é dos pirómanos. E dos pais e das mães dos pirómanos. A culpa é dos vendedores de isqueiros. A culpa é da indústria da madeira.

A culpa, bem vistas as coisas, só pode ser dos deputados. E das leis estéreis. E dos ministros da Agricultura, do Ambiente e da Administração Interna desde o 25 de Abril. E, já agora, dos ministros da Economia que nos fizeram desistir da agricultura e, dessa forma, do nosso património natural. A culpa é de Bruxelas. E dos fundos estruturais. A culpa é do primeiro-ministro. Deste, do anterior e de todos os outros. A culpa é do presidente da República, que disse que tudo o que era possível fazer tinha-o sido e que descobriu que dera um passo maior do que a sua generosidade.

A culpa é dos técnicos que nunca estiveram a cinco metros de uma torre de chamas e perdem os dias mergulhados em gráficos. A culpa é dos planos de reforma da floresta. A culpa é das gavetas fundas para onde foram atirados. A culpa é de quem diabolizou o eucalipto. A culpa é do excesso de eucalipto. A culpa é do pinheiro-bravo. E dos castanheiros. A culpa é da fase Charlie. A culpa é dos bombeiros. A culpa é de quem não os formou devidamente. De quem não lhes paga o justo preço por arriscarem a vida na fogueira do voluntariado. A culpa é dos meios aéreos. A culpa é dos Kamov. E dos Canadair.

A culpa é de quem não consegue pôr a funcionar um sistema de comunicações pornograficamente caro. A culpa é de quem lucrou um mar de notas com o silêncio dos rádios. A culpa é de um país que abandonou o interior e que só o reconhece nos momentos sombrios. A culpa é de um país que se mobiliza como poucos para ajudar, mas que se encolhe como nenhum para prevenir. A culpa é de quem não fechou a Estrada Nacional 236-1. A culpa é da sociedade. É de todos nós.

A culpa, podemos estar certos, será sempre esta ladainha pastosa que nos adormece os sentidos e não nos leva a nada nem a ninguém. É trágico, mas óbvio. A verdade, porém, é um estalo vigoroso: no ano de 2017, em Portugal, país da União Europeia repleto de modernidades, um incêndio florestal matou 64 pessoas. Destas, 47 ficaram encurraladas numa estrada suicida. Homens, mulheres, velhos e crianças. Famílias inteiras. A culpa, esse labirinto demasiadamente geométrico em que se perde o fio condutor da responsabilidade, arrasta-nos sempre para esta cronologia repetitiva. Mas Pedrógão Grande não tem paralelo. Se, depois disto, não acontecer nada, o melhor mesmo é deixar arder. A culpa, a nossa dignidade. E a nossa vergonha.

* SUBDIRETOR

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