A abrir

Intolerantes de bancada

Intolerantes de bancada

Quem assiste com algum distanciamento às várias formas de atuação na arena mediática não pode deixar de encontrar uma bizarra similitude entre o discurso dos agentes da política e do futebol. O que é tão mais extraordinário quando tantas vezes os primeiros condenam o comportamento dos segundos, ancorados numa sobranceria que é apenas ilusória. A tentação de bipolarizar os discursos, usando um megafone a partir de uma bancada apenas para os tornar audíveis, é um reflexo de como hoje se confundem opiniões com sentenças. E de como a falta de paciência para ouvir o que os outros têm para dizer - e de civismo, elevação intelectual e espírito democrático - se transformou, ela própria, num argumento para amordaçar a diferença. Se juntarmos a isto a cobertura dada pelo manto da desinformação (pasto verdejante para populismos e totalitarismos) temos ao lume um enorme caldeirão que mistura, em doses desreguladas, ideologia, preconceito, cobardia e desrespeito pela democracia e liberdade. "Je suis Charlie", mas só às vezes?

O que aconteceu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com o cancelamento, em cima do joelho, de uma conferência onde iria participar, como orador, Jaime Nogueira Pinto, subordinada ao tema "Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen", é bem o retrato de como este ambiente de intolerância e crispação está inculcado, inclusivamente, na cabeça dos mais novos. A associação de estudantes, cuja maioria está, aparentemente, conotada com a extrema-esquerda, decidiu boicotar o evento promovido pelo núcleo de alunos da "Nova Portugalidade", acusando-o de querer defender valores de extrema-direita.

A diatribe entre fações estudantis ganhou tamanho fôlego que a direção da Faculdade, num ato absolutamente condenável, impediu a realização do encontro com o qual inicialmente concordara, por temer que "as ameaças e discussões nas redes sociais" acabassem ao murro. Agindo, assim, coagida pela intransigência de uma das partes e não respeitando aquilo que o diretor Francisco Caramelo defende no site da instituição: a Faculdade "cultiva a liberdade de pensar e a reflexão crítica". Esperava-se mais vindo de quem anda a formar alunos.

Não há mordaças boas nem mordaças más. Não há censuras úteis nem censuras cegas. A liberdade de expressão só faz sentido para podermos discordar de quem não pensa como nós. Senão não se chamaria liberdade. Nem expressão. Mas outra coisa bem diferente.

* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

Recomendadas

Outros conteúdos GM

Conteúdo Patrocinado