Opinião

O imposto sistémico

O sobressalto seria maior se não estivessem já marcadas em nós as nódoas negras da habituação. Mas 13 mil milhões de euros são 13 mil milhões de euros. E todos, mas todos, brotaram dessa fonte inesgotável que é o nosso bolso. Oxalá tivesse sido um investimento que frutificou e não um desperdício que serpenteou no ralo dos inertes. Mas foi o que é. A montanha de dinheiro que separámos na última década para alimentar o apetite voraz da Banca evaporou-se naturalmente diante dos nossos olhos. Só mais um bocadinho. Prometemos que é a última vez. BPN, BPP, BES, Caixa Geral de Depósitos, Banif, Novo Banco. Montepio?

Derretemos mais ouro e suor nos bancos do que os britânicos. Mas eles só têm uma economia 13 vezes (maldito número) superior à nossa. E agora vamos pensar nas consequências disto tudo, e não falo só do ex-dono disto tudo. O que resultou verdadeiramente desta chapada de luva negra? O setor bancário está viçoso? A economia renasceu das cinzas, qual Fénix? Os predadores ganharam uma consciência? Os grandes devedores e apostadores do casino financeiro foram punidos exemplarmente? Nem um. Nem aqueles cujos nomes conhecemos. Aliás, alguns até se sentam, placidamente, nos camarotes dos estádios de futebol, entre o clubismo despeitado do primeiro-ministro e do ministro das Finanças. E eu que sempre ouvir dizer que a ética e o pudor eram obrigatórios quando entramos numa catedral...

Temos mesmo de aceitar com pacatez que um homem como Ricardo Salgado ainda encontre criatividade espiritual para perorar sobre a qualidade dos mortos e dos feridos que resultaram da tormenta? Que ainda insista na obstinada tese de que era preferível manter artificialmente um monstro que se alimentava a dívida? Que tudo estava bem quando sabia que ia acabar mal?

Foram anos da mesma lengalenga: tem de ser, temos de lançar a boia. Há risco sistémico, fechemos os olhos. É para nosso bem. Pois bem, mais coisa menos coisa, cada português desembolsou 1300 euros para este imposto indireto pago à Banca através do Estado. Uma espécie de IRS alternativo: Imposto do Risco Sistémico. Se pensarmos nele assim, até parece um pequeno castigo patriótico. Mas foram 13 mil milhões de euros de uma embriaguez que sobrecarregou o défice, forçando cortes nos salários, nas pensões, nos subsídios. É como salvar alguém de um afogamento para voltar a lançá-lo à água.

Razão tinha Jean Paul Getty, magnata norte-americano, quando proclamou: "Se ficar a dever 100 dólares a um banco, o problema é seu. Se ficar a dever um milhão, o problema é do banco". Se forem 13 mil milhões e estivermos a falar de Portugal, o problema é... bem, o problema é daqueles que vocês sabem.

*SUBDIRETOR

Recomendadas

Conteúdo Patrocinado

Outros conteúdos GM