A miséria pode ter muitas expressões. Pode ser material, pode ser sentimental. Pode ser moral. Quem padece desta última variação da miséria acrescenta a essa condição a total ausência de escrúpulos, vulgo sacanice, vulgo uma palavra mais feia que a boa educação me impede de reproduzir. Filha da... Isso. Em Pedrógão, houve gente (força de expressão) que saqueou os restos da miséria de quem perdeu tudo nos fogos. Envergaram as asas dos anjos caridosos. Procurando resgatar a bondade de quem é bondoso a dar aos outros. Falsos técnicos diligentes. Negligentes. E houve outros nacos de gente (não é força de expressão, mas forca de expressão) que entraram nas casas vazias de quem fugiu da morte para levar as memórias físicas de quem não quer mais ter memória daquele lugar. Levaram ouro. Um vestido de noiva. Naquela geografia obscura de Portugal, foram mais fundo no caminho vertiginoso para o fosso. Provando que a natureza humana não cessa de nos invadir com a força intempestiva de um fogo voraz que lambe tudo à sua passagem. Deixando um pasto negro, sem palpitação. Uma estrada sem ponta de humanidade.
* JORNALISTA
