Se há dois ou três anos nos dissessem que o primeiro--ministro de Portugal ia de peito feito dar uma entrevista a um jornal alemão reclamando por uma despenalização da nota de risco da economia face ao jugo voraz das agências de rating, não só acharíamos altamente improvável, como pouco prudente. Porque nessa altura havia Pedro Passos Coelho e não havia António Costa e, sobretudo, porque a conjuntura (e, porque não dizê-lo, alguma reverência e temor) não permitiria ao primeiro dizer então o que agora disse o segundo.
Independentemente de o atual chefe do Governo estar inebriado pelo perfume viciante que nos tem borrifado o orgulho, é importante reter o significado desta mudança de atitude face àquilo que nos era imposto como um dogma. Poder ter a autoridade para reclamar por justiça no palco europeu é uma tremenda conquista. Poder ter opinião sobre o destino coletivo de um país e não estar sujeito (apenas) à obediência cega que nos garantia um jato constante na ajuda financeira é um salto qualitativo enorme.
Esperar, por isso, que as agências de rating deixem de olhar para nós com as lentes de 2011 que nos lançaram ao lixo é o mínimo que se lhes pode exigir. Não é um favor que nos fazem a nós, mas a si próprias. Mais: estou certo de que estamos tão bem intencionados que até permitimos que usem da mesma bonomia com que nos serviram na bandeja dos mercados financeiros como agentes leprosos para, agora, nos apresentarem como prova irrefutável da sua competência e bravura.
É verdade que os números ajudam. E de que maneira. Ostentamos o défice mais baixo desde 1975; livrámo-nos do procedimento por défices excessivos (embora o espartilho de Bruxelas continue lá, bem apertadinho); as exportações dispararam 23,9% em março (últimos dados disponíveis); e os indicadores de confiança dos consumidores voltaram a aumentar, reforçando uma tendência sentida desde 2013.
Todos sabemos que as boas notícias geram boas notícias, que só um político autista não aproveitaria esta maré favorável para encetar uma cavalgada triunfante, mas temo bem que não saibamos tirar a emoção destas vitórias para lhes incutir alguma razão. Encher o peito de ar para melhor projetar a voz é uma coisa, deixar que o coração comande a cabeça é outra. E o passado já nos ensinou que também conseguimos ser os melhores da Europa a passar da euforia à depressão. O melhor que nos pode acontecer somos nós. O pior também.
* SUBDIRETOR
