A mais de um ano das eleições autárquicas, começa a desenhar-se um cenário político que pode transformar, de novo, a cidade do Porto no palco mais iluminado da noite eleitoral e, simultaneamente, num terreno movediço para os socialistas, tradicionalmente bem-sucedidos neste concelho. A recandidatura já anunciada do independente Rui Moreira, não tendo surpreendido ninguém, deixou, contudo, as estruturas locais do partido da rosa ainda mais cientes de que poderão ser levadas a tomar uma atitude inédita que está longe de ser pacífica no interior de um partido que, à escala local, vive (ainda) aprisionado no espartilho do aparelho.
A pergunta do milhão de euros (pode o PS não apresentar uma candidatura própria à segunda cidade do país?) não tem uma resposta óbvia. Ainda que ao presidente da Federação e homem-forte do PS no Executivo, Manuel Pizarro, não pareça restar alternativa que não a de manter-se fiel à coligação pós-eleitoral. Isto se quiser ser minimamente coerente com o que tem feito neste mandato. Pizarro pede tempo aos militantes. Até junho. Mas pede mais: que não confundam o homem com o cargo. Como se fosse entendível o líder do PS/Porto apoiar Rui Moreira e o PS/Porto apoiar um candidato próprio.
Por outro lado, a estratégia seguida pelos socialistas no Porto terá, necessariamente, uma leitura nacional. O PS é Governo e tem a ambição de continuar a sê-lo em 2017. Não é certo que o resultado autárquico do Porto contagie o resultado das legislativas de 2019, mas os 32,62% que o partido obteve, na cidade, nas eleições gerais de 2015 não são menosprezáveis. Depois, há que olhar para a Esquerda. PCP e BE não quererão perder capital político na segunda metrópole do país e a inexistência de uma candidatura socialista abrirá caminho a uma "canibalização" desse espaço político. Se, ainda por cima, PCP e BE avançarem com nomes sonantes, a margem estreita-se ainda mais para o PS.
Com um PSD local desorientado e em boa parte anulado pelo ascendente de Rui Moreira junto do eleitorado de Centro-Direita, basta ao autarca portuense assistir a tudo de bancada. Aceita o apoio de todos, mas não se deixa condicionar por ninguém. Aliás, desconfio mesmo que Rui Moreira até teria mais a ganhar se nenhum partido o apoiasse, na medida em que via revigorada a marca distintiva da sua candidatura.
Até junho, muita coisa pode acontecer. Mas nem por isso o PS deixará de ficar emparedado entre dois dilemas: apoiar Rui Moreira, sendo coerente com as opções do atual mandato, e ambicionar colher os louros de uma mais do que provável reeleição? Ou avançar sozinho, ocupando o seu espaço eleitoral tradicional, mas arriscando um resultado desastroso que pode, no limite, fazer tremer o Governo?
Num e noutro caso, Rui Moreira sai a ganhar.
