Belisquei-me uma, duas, três vezes. Achei melhor parar, porque o exercício de masoquismo não só não estava a surtir o efeito desejado, como já estava a deixar-me marcas. Olhei em volta na esperança de ver Michael J. Fox sair, esbaforido, de um DeLorean, como no "Regresso ao futuro". Mas não. Concluí, derrotado, que não estávamos em 1925, apesar de, muito provavelmente, Gonçalo da Câmara Pereira ainda não se ter apercebido.
O vice-presidente do Partido Popular Monárquico continua estacionado no século passado mas, mesmo assim, Assunção Cristas achou por bem assinar com ele um acordo de coligação para a Câmara de Lisboa. Aparentemente, porque ter o vento de Lisboa colado à sua pele e a água do Tejo colada à sua alma não era uma aventura suficientemente desafiadora.
Ora, durante o ato público que selou as juras de amor político, veio ao de cima (de novo) o machismo aprimorado do fadista e ex--concorrente da Quinta das Celebridades. Cristas é uma boa escolha também porque "não descurou o trabalho e a casa". "Como mulher, a dr.ª Assunção Cristas sabe bem que, para se trabalhar, não se pode usar espartilho nem a saia travada, a saia tem de ser larga e, se necessário, vestir calças". Em suma: é uma modernaça porque tem uma profissão, mas não ao ponto de deixar-se levar por essas extravagâncias. Ou seja, se for preciso, dá a ferro e muda fraldas depois dos conselhos de ministros.
Após este rasgadíssimo elogio, não deu para perceber, pela televisão, a extensão do poder de encaixe da líder do CDS, mas a julgar pela resposta dada ficou evidente que o seu amor próprio vale bem menos do que os 2820 votos obtidos pelos monárquicos em Lisboa. "Tenho calçado botas e calças de ganga muitas vezes para estar nos bairros sociais junto das pessoas".
Em vez de estancar o marialvismo nefasto do parceiro de coligação, Cristas acrescentou-lhe o preconceito e a superioridade social, provando que, em política, a autenticidade postiça consegue ser pior do que a ausência de estratégia. Disso, ao menos, Gonçalo da Câmara Pereira não pode ser acusado. O homem que acha que as mulheres bonitas são todas "burras" - e que associa o período menstrual a uma doença -, está apenas a ser o que sempre foi. Um corpo que reage a impulsos em 2017 comandado por uma cabeça que adormeceu em 1925. Já Assunção Cristas, na ânsia de querer mergulhar no mundo dos pobrezinhos, só foi capaz de lançar mais uns votos pela janela.
Um conselho: da próxima vez que for a um bairro social, não leve calças nem botas. Use antes um fato de treino e umas sapatilhas (perdão, uns ténis). Pode sempre chamar-lhe jogging em vez de assistencialismo eleitoral.
*SUBDIRETOR
