Opinião

Um divórcio não é um funeral

Um divórcio não é um funeral

Hoje é o primeiro dia do resto das vidas desalinhadas do Reino Unido e da União Europeia: o dia em que se inicia o divórcio de uma relação que tinha tudo para dar certo - no esforçado querer dos otimistas - ou tinha tantas exceções e facadas matrimoniais que - para os menos dados a estados de alma - era só uma questão de tempo até começarem a ser discutidas as partilhas entre o casal. O Brexit pode sofrer, ao longo das negociações arrastadas que se anteveem, múltiplos ajustes, mas uma coisa é certa: já não há volta. Tu ficas com a casa, eu fico com o carro. Porque, no final, it"s all about the money.

A imagem da Europa que, há dias, os líderes dos estados--membros exibiram na lapela dos fatos garbosos já não é aquela da Declaração de Roma, em que os pais fundadores tinham abertura de espírito para acolher os filhos desvalidos. A Europa de hoje é a dos fortes e dos fracos. Da lei dos que ditam as leis e de como elas se aplicam de forma universal a todos. A Europa onde se discutem as velocidades dos países; primeiro, os mais fortes; depois, os mais fortes e, por fim, os mais fortes.

Não nos iludamos. A rede de cumplicidades entre estados cerzida há 60 anos é hoje uma teia volátil de dependências e interesses. Se, à época, aos líderes europeus que sonharam esta forma de vida em comunidade lhes fosse dito que a Europa ia pagar fortunas a países terceiros para se ver livre dos refugiados de guerra, provavelmente nenhum acreditaria. Se, por hipótese, lhes tivessem dito que ia forjar-se uma união monetária e que esta ia potenciar a criação de um discurso único focado na obsessão pelo controlo das contas públicas (sim, vencemos o défice, mas continuamos a navegar à vista), poucos veriam aí uma estratégia ganhadora e com futuro.

Mas esta Europa que assume rostos tão díspares é, ainda assim, a melhor viagem em que pudemos embarcar. Sair agora, na condição débil que nunca verdadeiramente abandonámos, até pode soar patriótico para alguns, mas viria a revelar-se um mergulho de cabeça no vazio. Um retrocesso egoísta.

A União Europeia é o mais imperfeito dos melhores sistemas, na sua imensidão de fraquezas. O Reino Unido, que é o Reino Unido, percebeu-o no exato momento em que disse não. Em particular, as gerações mais novas, que não alinham em nacionalismos ou conservadorismos exacerbados e para quem esta aldeia europeia é um mercado de trabalho global. O Brexit é certamente um divórcio doloroso e dispendioso, mas não queiramos transformá-lo num funeral coletivo.

* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

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