O Jogo ao Vivo

Opinião

A bomba global

Em 2004, Daniel Innerarity dizia que "o Mundo é como uma grande rede, mas (...) mais intransparente, porque a rede é também uma trama" de interações complicadas e dificilmente identificáveis.

O fim do Mundo bipolar que caracterizou o período da denominada "guerra fria" é também, de certo modo, o fim de uma era de explicações geopolíticas centradas na lógica de blocos identificáveis em fronteiras e limites limpos e simples. Era fácil reconhecer o inimigo, isolá-lo numa conceção antagónica à "nossa", num jogo claro-escuro, onde a penumbra se exorcizava na explanação clara que a política externa nos mostrava.

Hoje tudo é diferente. A simetria que governava as relações de contenção mútua entre os EUA e a União Soviética (agora, Rússia) na corrida ao armamento nuclear (ambas se destruiriam em caso de conflito) está perturbada pelo surgir de outros atores, de novas geografias sem fronteiras precisas, de ideologias sem ideologia, movimentos transnacionais (finanças, mercados, migrações de pessoas, do conhecimento e tecnologia...) que nos mostram uma realidade multipolar, sem foco estável ou centro fixo, onde a racionalidade que define a legitimidade das ações em democracia não consegue ultrapassar o véu opaco de alianças insólitas, interesses dificilmente compreensíveis, acordos surpreendentes e voláteis, que antevemos, mas desconhecemos.

O diálogo de surdos entre Donald Trump e Kim Jong-un, só pelo primarismo da linguagem - boçal, concreta - pode ser considerado claro e simples. Nada é límpido. Um mar de subentendidos pauta a comunicação, um abismo de interesses plurais e conflituantes tece a trama que configura a imagem da ONU como rede débil e instável. Os números que nos chegam são um testemunho cruel: o Ploughshares Fund diz haver 15 695 armas nucleares nas mãos de nove países (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte), onde a tecnologia militar se traduz em sede de poder e intimidação silenciosa nas relações internacionais; mas o perigo está, ainda, nas armas nucleares operacionais que alguns outros estados possuem (Irão, Iraque, Síria, Líbia, entre outros), bem como grupos terroristas e outros agentes de um mercado negro ativo e próspero.

As armas nucleares têm um poder devastador, cuja ação não se confina a uma área precisa, nem a um tempo delimitado; os seus efeitos radioativos estendem-se por décadas. São globais.

É urgente compreendê-lo, dizê-lo antes que as trevas emerjam no silêncio.

PRESIDENTE DO POLITÉCNICO DO PORTO

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