Há dois anos e meio - mais precisamente a 28 de abril de 2014 - publiquei aqui uma crónica intitulada "Os ovos todos no mesmo cesto?". Era uma crónica em que abordava o significativo crescimento do turismo no Porto e em que chamava a atenção para a necessidade de, aproveitando o seu potencial e procurando fazer perdurar o mesmo no tempo, pensarmos a cidade para além dessa vocação turística.
Confrontando o aumento turístico com a perda de população (e o seu envelhecimento e empobrecimento), concluía que "se não alterarmos esta situação, o Porto arrisca-se a ficar transformado em mero postal turístico, desprovido do seu caráter, esse, sim, o traço distintivo que leva os milhares de turistas a optarem pela cidade".
Neste período natalício, calcorreei inúmeras vezes o centro do Porto. E, naturalmente, agradou-me ver a avalanche de pessoas que passeavam pelas ruas, aproveitando o bom tempo que se fez sentir e, presumo, dando alento ao comércio tradicional. E, notava-se bem, milhares dessas pessoas eram turistas. Mas fiquei com a sensação de que os piores receios que tinha expresso em abril de 2014 se estão a confirmar. Se é verdade que muitos prédios estão a ser reabilitados, também o é que o destino dos mesmos é quase exclusivamente o turismo, com mais e mais hotéis, hostels, apartamentos T0 e T1 para aluguer turístico. A que se soma o comércio destinado aos "souvenires" e os cafés e restaurantes adaptados aos turistas - fico com os cabelos em pé quando vejo letreiros a informar que servem "english breakfast" (e que pena tenho daqueles que não sabem ser romanos em Roma e que, por isso, não ficam a conhecer - e a gostar - das "nossas" torradas com uma meia de leite)!
E, parece-me, a maioria que governa a Câmara Municipal do Porto, inebriada com esta animação, não está a ter capacidade para pensar a cidade para além do "boom" turístico - nem sequer para lhe dar resposta. A cidade está mais suja (lixo espalhado nas ruas e acumulado junto aos contentores), há dezenas de sem-abrigo a pernoitarem nas ruas. Simultaneamente, muitos moradores abandonam as suas casas, corridos por senhorios que pretendem transformar as suas casas em alojamentos turísticos ou porque não aguentam a agitação provocada por vizinhos turistas em constante rotação. Ao nível dos transportes, a confusão completa, com autocarros turísticos em fila, tuque-tuques a estorvarem-se, segways (veículos de duas rodas, onde o condutor vai de pé) a circularem nos passeios... E querem, agora, lojas das grandes cadeias internacionais de luxo na Avenida dos Aliados...
Creio, assim, ser útil que, nas autárquicas de 2017 se debata o que pretendemos para o Porto em matéria de salvaguarda e sustentabilidade do turismo, mas também de combate aos seus malefícios, preservando as gentes e a identidade do Porto e prevenindo o "pós-turismo".
* ENGENHEIRO
