Nada mais nada menos: há hoje em Portugal 310 cursos de Engenharia. "É um excesso que não se justifica", diz Fernando Santo, bastonário da Ordem dos Engenheiros, que também critica uma alegada "cultura do facilistismo" no acesso às escolas.
O mero facto de chegar a uma faculdade onde se faz um dos muitos cursos de engenharia é, na opinião de Fernando Santo, o primeiro passo desse estado de coisas. De facto, as notas dos exames de acesso às faculdades apenas contam em 30% para a média global. E porque assim é, as famílias com maiores recursos (ver caixa) recorrem ao ensino privado nessa etapa prévia ao ensino superior. Conseguir notas mais altas, com o objectivo claro de entrar numa universidade pública, é o fito. E isto porque o mercado dá "maior e justo reconhecimento" a quem se formou nelas, diz Fernando Santo. "Aqueles que são mais exigentes e que fazem um maior esforço acabam por ser prejudicados", acrescenta.
Dos 310 cursos de engenharia existentes no país, apenas 97 estão acreditados pela Ordem dos Engenheiros, cujo conselho de admissão faz a apreciação cur ricular de cada um deles e depois lhes dá ou não o seu aval. Em termos práticos, isto significa que os ainda meros licenciados com cursos acreditados pela Ordem entram nela sem exame de admissão e passam a ser formalmente engenheiros. Já os licenciados por cursos não acreditados têm de sujeitar-se a um exame da Ordem. Se quiserem, claro.
No ano passado, foram cerca de 280 os licenciados nesta situação que se propuseram a esse exame, mas só cerca de metade foram aprovados. Este ano, as coisas melhoraram: dos 338 candidatos que em Fevereiro se apresentaram à aprovação pela OE, apenas 30% foram chumbados.
"O que é que, depois, acontece na prática?", pergunta-se Fernando Santo. "Enquanto o sector privado acaba por escolher os alunos muitas vezes em função da escola de origem, quando chegamos à Função Pública ou às Câmaras, as notas geralmente são um dos elementos fundamentais para admissão", responde. Acontece que nas autarquias as carreiras técnicas não carecem de inscrição na OE, lembra o bastonário. "Isto significa que há licenciados em engenharia a produzirem actos de engenharia que o Estado não exige sejam feitos por membros da OE, ao contrário de empregadores privados."
"Somos rigorosos"
Os técnicos de engenharia admitidos na administração central ou autárquica não têm, portanto, de estar obrigatoriamente inscritos na OE, ao contrário do que acontece, por exemplo, com um licenciado em medicina se quer ser médico: "Somos uma ordem aberta em termos de mercado. Tirando a engenharia civil e a electrotécnica, na Direcção Geral de Energia, todos os outros engenheiros podem exercer função sem ninguém lhes pedir nenhum papel da ordem. Se fôssemos menos rigorosos e dados ao facilitismo, em vez de 38 mil membros que hoje temos teríamos uns 50 mil. Mas achamos que esse não é o caminho para prestarmos um bom serviço", considera Fernando Santo.
Quanto ao excesso de cursos de engenharia, o bastonário argumenta que ainda menos se justificará pelo simples facto de que o eventual desaparecimento do mercado de empresas que terão justificado o seu surgimento, deixará facilmente esses engenheiros sem trabalho. Porque muitos desses cursos, refere, são excessiva e inutilmente especializados e fecham obviamente o leque de alternativas profissionais.
Alunos com posses têm mais hipóteses no ensino público
Serão afinal as universidades privadas mais frequentadas ou menos frequentadas por alunos provindos de famílias com maiores recursos? "Consta é que nas universidades públicas acabam por estar muitos mais alunos de famílias com mais recursos, e que nas privadas acontece o inverso", responde Fernando Santo. E explica : "As famílias que têm mais poder económico podem pagar os colégios, onde parece ser mais fácil obter melhores notas, e por consequência aumentar a probabilidade de esses alunos entrarem para as universidades públicas.... Os outros saem prejudicados mesmo tendo melhores qualidades como alunos, e acabam, como última alternativa, por ter de ir para as privadas. Ora esta é uma inversão total do sistema, baseado numa forma de vender facilidades". Dar a volta a este estado de coisas poderia passar por "alterar o peso das médias" e verificar a qualidade do ensino. Nos anos 60, para entrar para o IST, a fasquia era de 14 valores e não de 9.5", aponta o bastonário.
