Em Junho, Artur Vieira de Andrade, reconhecido impulsionador da candidatura, em 1958, de Humberto Delgado à Presidência da República, cuja campanha viria a ter a sua maior manifestação no Porto, confessou, ao JN, ter perdido o optimismo. "A pior herança do fascismo é a ignorância. E o medo. Já ninguém acredita na democracia, a não ser quem vive à custa dela - e muitos desses suspiram por Salazar. Isto revolta".
Ontem, aos 92 anos, o homem que foi um dos maiores combatentes do regime salazarista perdeu também a vida, vítima de doença. Eram 15.10 horas. Estava internado no Hospital Universitário de Coimbra.
Arquitecto - maldito antes do 25 de Abril -, licenciado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde nasceu e viveu, deixa obra polvilhada pela cidade é dele o projecto do Cinema Batalha, de 1946; o antigo Café Rialto, transformado, entretanto, em agência bancária; a garagem da Fiat, à Rua Latino Coelho. E chegou a conceber um projecto para o Palácio de Cristal, que acabou preterido por motivos políticos.
À profissão adicionou sempre o empenho pela causa pública, que por oito vezes o conduziu à prisão. Da primeira vez, tinha, apenas, 23 anos. "Os murros e os pontapés que me deram na prisão não paravam", recordou, recentemente. Liderou inúmeras estruturas associativas e foi presidente da primeira Câmara democrática do Porto, a seguir ao 25 de Abril - uma das raras figuras a quem, nesse ano, a Esquerda não conseguiu questionar a credibilidade democrática.
Repetiu a experiência autárquica, na qual desempenhou funções como vereador do Urbanismo, entre 1979 e 1983. E foi ainda vice-presidente no mandato de Alfredo Coelho Magalhães.