A reaproximação percentual da Esquerda francesa à extrema-direita corresponde a um teste prático de sobrevivência, inevitável e absolutamente decisivo para evitar os males maiores que estão a bater à porta da Europa. A Esquerda terá de esquecer teorias para poder vencer eleições e isso é marcadamente ideológico. A inteligência de esquecer revoluções passadas pode ser a nova revolução da Esquerda europeia, a única forma de impedir que o populismo da extrema-direita seja poder, aqui e já.
Com eleições marcadas para 30 de Junho e 7 de Julho (o sistema eleitoral francês configura duas voltas para as legislativas), quatro forças políticas francesas perceberam a inevitabilidade de apagar divergências numa Nova Frente Popular que pode e deve servir de farol para a confirmação da polarização que nenhum “centrão” pode agora desmanchar. É este o caminho de vários países europeus, orientação que dificilmente Portugal poderá evitar. Talvez seja esse o “banho de realidade”: a percepção do absurdo de partidos tão semelhantes fazerem das suas forças fraquezas, quando facilmente seriam apenas tendências democráticas numa federação forte e comum que permitisse a adesão popular que a sua trágica e histórica fragmentação não permite.
As eleições europeias confirmaram os perigos e França sabe-o bem. A ilusão de Macron, querendo ignorar os extremos e adoptando medidas que acabaram por ir ao encontro da negação das suas próprias convicções, foi porto seguro para o crescimento da extrema-direita que ocupou as hesitações de Macron com votos em urna. Ignorar não é solução, mas muito menos faz sentido torcer sem quebrar. O contorcionismo político não é táctica e a adopção de medidas populistas para combater os populismos só reforça o mal verdadeiro. Aparentemente, dá-lhes razão e muitos preferem a versão original, mais violenta, mais clara, mais redutora na comunicação e fácil no engano.
A luta contra a fragmentação da Esquerda deverá ser uma luta democrática. O acordo entre socialistas, comunistas, ecologistas e “mélenchonistas” em França coloca-os a três pontos percentuais do Reagrupamento Nacional de extrema-direita. Em Portugal, a Esquerda pode esperar ou cruzar os dedos para torcer muito, mas é visível que continua de braços cruzados, irresponsavelmente, sem querer ser poder e autorizar-se aos maiores combates.

