O pacote “Mais Habitação” será hoje confirmado no Parlamento por uma maioria absoluta a exercer o seu poder. Importa muitíssimo para o sistema democrático que assim seja. A falta de adesão que muitos sentem ao assistir à confirmação da decisão de uma maioria, no respeito pela separação e segregação de poderes, é semelhante àquela que sustentava não ser possível perder eleições e formar Governo, conduzindo Portugal com uma maioria relativa de incidência parlamentar.
É assim mesmo, ainda que contra a opinião e desejo de dois presidentes da República tão distintos como Aníbal Cavaco Silva ou Marcelo Rebelo de Sousa. Curiosamente oriundos do mesmo espaço político, lidam com o desconforto natural de presidirem contrafeitos a uma geringonça e, agora, a uma maioria absoluta sem peças. Ocupados por uma moção de censura para a extrema-direita ver, verbo-de-encher para isolar o PSD, os dias para a Oposição terão de começar a ser melhores.
Carregados por demasiada demagogia e tacticismo, à direita do PS vivem-se tempos que só Luís Montenegro poderá salvar se ainda for a tempo. A ideia de que continua a prazo como líder reforça-se à medida que desenterra Cavaco Silva, Passos Coelho e Durão Barroso do armário, nomes nada queridos pelo eleitorado ao centro. Talvez o único com que tenha mesmo que conviver seja o homem do meio. Passos Coelho pode voltar a ter adesão no país mas, para tal, precisa que Montenegro ganhe tempo. Este é um problema grave do PSD. Boa parte dos seus ex-líderes e putativos candidatos continuam com muito má imagem pública junto dos portugueses. Qualquer um deles precisa de tempo que Montenegro nem sequer constrói. O eleitorado ao centro sente-se confortável com António Costa.
Marcelo apelida as únicas medidas sistémicas dos últimos anos para o combate ao desespero que se vive no mercado da habitação como sendo uma “folgazinha importante para as famílias no imediato”. As costas das famílias, vergadas ao peso da insustentável subida das taxas de juro e dos lucros milionários da banca, erguem-se um pouco, olhando o horizonte. Mas parece coisa de somenos para a posição presidencial ou partidária. Ao invés de densificar e promover, há uma Oposição que julga poder construir uma alternativa pelo telhado, enquanto ergue muros que caem pela base. É tempo de alternativas, sim. Mas dificilmente alguma delas vingará com demagogia, deita-abaixo ou ausência de propostas alternativas estruturais.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

