O sistema do semáforo passará a ser passagem obrigatória no Parlamento com a introdução de sinais luminosos para deputados que não sintam a passagem do tempo.
Longe de ser algo que se aplique a deputados zen. Hoje inaugura-se o mecanismo que controlará o tempo de intervenções dos deputados, retirando-lhes a passadeira, alternância verde-amarelo-vermelho para o controlo de verborreia, mas não do acinte ou das interrupções. Poderá dizer-se tudo de igual modo, só que em versão síntese plástico. Continuaremos a passar um pano sem limpar o pó.
Entre o tempo e o conteúdo, o Parlamento escolheu enredar-se em formalismos de liceu que não dão garante de dignidade, mas tão-só de cumprimento de horários. A partir de hoje, há semáforos para organizar a passagem mas ninguém para multar os excessos de velocidade ou os crimes de ódio com imunidade parlamentar.
Foi assim que o vermelho acendeu em Portugal enquanto o verde se iluminou para a Europa. A aprovação política do nome de António Costa para Presidente do Conselho Europeu lança a ideia de que o grau de exigência do país colocou a fasquia bem alto. Quando, infelizmente, é o inverso. O processo que conduziu à queda do Governo de Costa é um episódio que a História estudará no paralelismo com o “soft power” dos golpes de estado institucionais.
Pobre trama, esta, que continua a produzir a prova que comprova a falta de sentido e arbítrio da Procuradoria Geral da República, cuja demissão se impõe, caso não pretenda sair pelo pelo próprio pé. Cada conquista europeia de António Costa deveria produzir embaraço e vergonha em quem elegeu parágrafos por menu. Marcelo Rebelo de Sousa, refém da sua própria decisão, não quererá introduzir mais fracturas na imagem pública nos mínimos de aceitação.
Decidindo não correr riscos, mantendo o inaceitável, fragiliza-se ainda mais, não sendo garante maior do que quer que seja.
A forma como a extrema-direita ressuscita Pedro Passos Coelho para qualquer situação de confronto com Luís Montenegro, diz bem sobre o lado certo da História que o primeiro-ministro está a trilhar. Os próximos capítulos eleitorais indiciam a instabilidade que pode surgir antecipadamente na discussão do Orçamento do Estado, pelo que os posicionamentos partidários actuais nem sequer revelam uma orientação clara. Todos parecem estar a navegar à vista, erráticos, sem ousar uma aproximação a terra. Congeminam uniões e frentes para jornalismo ver. O conteúdo é zero mas o tempo para a irrelevância está a contar sem que alguém olhe para o semáforo.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

