A oligarquia que tomou o poder nos Estados Unidos pretende tomar conta de nós por uma espécie de privilégio natural que lhes permite ir contra a ciência, contra o equilíbrio, contra os valores de civilização e progresso, a favor do seu algoritmo. As primeiras medidas de Donald Trump não deixam de ser um libreto com uma dinâmica permanente por alguns anos, que deixará marcas irreversíveis a muita gente, a muitas conquistas e que, para já, regressa ao seu consulado anterior para fazer “reset” a toda a administração Biden. Fundamentalmente, a certeza e a convicção de que tudo mudou. A expectativa irritante é alta e a mobilização europeia é agora inevitável perante a possibilidade do fim do modelo económico europeu. O culto da arrogância e do orgulhosamente capaz de decidir unilateral e visceralmente é o novo modelo americano de Trump, inimputável pelo facto de ter sucedido e vencido após sobreviver à catástrofe e à teórica impossibilidade de regressar ao poder. A inimputabilidade também se constrói assim.
Depois, as sombras. Não é uma espécie de saudação nazi que faz de Elon Musk um nazi. O debate que se instalou sobre a realidade, tontice ou simulacro é tudo o que os demagogos precisam para alimentar teorias que acabarão por granjear sempre mais adeptos do que aqueles que têm à partida. É a alimentar a fricção que toda esta gente faz fogo. Elon Musk é mais perigoso do que um qualquer nazi porque nos coloca a debater sobre a sua real identidade e a teorizar sobre a relativização dos seus gestos. Quando toda a sua acção nos tempos mais recentes é mais do que suficiente para o caracterizar como um verdadeiro inimigo público que sonha com máquinas e mundos de distopia. No entanto, as sombras estão muito mais no que ficou por dizer do que no que foi dito (e já decretado) no dia um da segunda administração de Trump.
Centrado no seu umbigo, a renomear o golfo do México ou a comprar território avulso no planeta, o presidente dos EUA não teve uma única palavra para o mundo-inferno que separa os oligarcas que colocou, reverencialmente a seu lado, da pobreza extrema de 800 mil americanos sem abrigo ou de um sistema nacional de saúde que empurra milhares de pessoas para a morte e que não é acessível a milhões de americanos. Nem uma palavra sobre a crise climática, pelo contrário, a defesa da sua negação. O anátema das deportações na condenação das palavras da bispa Mariann Edgar Budde que teve a coragem de pedir clemência. A pose, a companhia, as primeiras ordens executivas. Como bem salientou Bernie Sanders, que não nos ocupemos a rebater e a responder a cada medida de Trump durante o seu mandato. É isso que o gesto de Musk significa e comprova. Quem tem dúvidas não está pronto para este combate. Nos EUA como na Europa, a opção que resiste à falência do sistema é mesmo única: construir uma alternativa que responda à crise social.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

